POEMAS SARAU DE BÁRBARA 2024

Sarau de Bárbara 2024  
POEMAS 
 SANTA BÁRBARA DOS RAIOS


ANTIGO SAPÊ 
“Vou contar 
A história de um bairro popular 
De gente humilde e pacata 
Lá tem samba e tem mulata 
Tem uma praça para a gente passear 

Quem não acredita 
Venha ver 
Eu falo de Rocha Miranda 
Saudoso e antigo Sapê 

Praça das Pérolas 
Que fica bem de frente à estação 
Onde aos domingos 
Passeavam os namorados 
Sob a luz do pêsco lampião 

Agora temos 
Uma igreja avançada 
Onde a minha namorada 
Faz a sua oração  

Quem não acredita 
Venha ver 
Eu falo de Rocha Miranda 
Saudoso e antigo Sapê!” 

Música: Antigo Sapê  
– autoria de Samuel Rocha, consta no LP “Os Partideiros Do Plá – Na Cucuruca Do Samba”, Intérprete: Roque Do Plá, Selo: Tapecar (TC-010), Formato: Vinil, LP, Álbum, Brasil, 1972. 



DALI ALBUQUERQUE 
Iansã tbm é barbara
O meu seguir veio da Africa
A minha cor é tão mulata
Meu amor se chama Bárbara...ai
Iansã tbm é barbara...minha mãe
Dia 4 de Dezembro, no mercado modelo
Acredita na vida meus olhos vermelhos
Minha semente é mulher, Iansã é meu axé
Com a graça divina de Oxaguiãn
Menino profano, sagrado sonhando
Lá vou eu pela vida
Poetas tão anjos ou deuses cantando
E o amor numa rima



Via VIDA RIBEIRO 
SANTA BÁRBARA 
(Fátima Guedes)
Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão
Muitos ventos, muitos ventos
passam por meu coração
na carícia quase bruta
do poder de vossa mão
Senhora, me iluminai
Clareai meus pensamentos
Santa Bárbara
dos tempos violentos
Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão
Vejo em vossos elementos
a chuva não vai parar
até ter deixado limpos
meu corpo e minha alma
Dona dos meus temporais,
Senhora de olhos cinzentos,
Santa Bárbara dos tempos violentos
Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão 



MARCIO RUFINO 
*Varanda* 
A varanda está cheia de imbecis
Eles têm medo do diferente
Por isso o amor virou bobagem
O respeito virou babaquice
A sabedoria virou bobeira
Eles querem a morte
A destruição do planeta
Eles não suportam a idéia
De Adão e Eva viverem dentro de nós
É mais fácil destruir nossos corpos
Do que educá-los
Mas aqui dentro, enquanto a chuva cai,
As paredes já infiltradas desta casa,
Inspira minha ação de escrever
Sem romantismo.
Que a enxurrada que cai lá fora,
Neutralizada pelo guardião alpendre da varanda,
Lave a encardida e inválida hegemonia
Dos que buscam mudança
Para fugir da transformação.
 *Márcio Rufino* 



JORGE MAGALHA 
O vento sopra: Bárbara...
Vem a tempestade lavar as impurezas.
Relampeia: Iansã...
Cai o raio que incendeia os covardes 


.  
ANDRÉ BENTES 
Deuses nascem
Dizem que se
E somente se
Não só
Isso é lógico.
Teu colo é invisível
Eu duvido,
logo quero.
Deixo ele vir
Puro e simples
Simples e óbvio
Teu corpo é 
meu fascínio
Deuses nascem
Deuses novos
Vou pedir você de novo
Como quem vê 
Virtude em vício.
Você
De novo.
Dois mil 
e deuses novos. 



Envelopado em mantos e peças articuladas, um tanto trator, um tanto monstro, megafauna de eras remotas, figura gótica esculpida em pedra, o que atrai poderes extra-sensoriais e outros, o faro que enxerga, os medos que ouriçam os pelos, e por isso mesmo de longe já se avistam antenas, espectros por flechas rasantes são asas, ao toque iminente por certo um ferrão… o lado exótico do encoberto é talhar o invisível, por sólido somente a máscara, por dentro das vestes um tição em brasa, o que fere a carne, quimera viril, vulto percebido aos saltos, penumbra densa por ameaça, névoa, enigma em tempos escuros, as notícias gritam, as pessoas se assustam, tampar os ouvidos em nada ajuda, finge-se de morto e o mundo piora, pois saiba do tempo abafado donde brotam cupins, nuvens com destino a cópula, e se essas contagiam as mentes, corrente elétrica, umidade, vento, e cupins se tornam torrentes d’água de pingos grossos, desses que explodem pedras no asfalto e somem… se evaporam na fritura do solo, o incerto imediato dos ritos de enchentes e secas, marés que sobem e teimam em vazar de pronto, é neste movimento sobre asfalto tórrido que ficam pegadas pesadas de búfalo, tonelada de fúria, e força estúpida, o medo concreto como meta, respire, retire-se a carcaça e os córnos e neste caos já se perde a métrica, não mais se vive em frescor ou incêndio, apenas mormaço mito mór, ou riso onde se esconde a dor, escuridão presa em cores vivas, esta é última gota da carne evidente, assim exposta, por um instante: contemple-se a borboleta por colosso, se ela pousa imperial, ou se voa inofensiva, borboleta absoluta, asas coloridas pela simetria do espelho, mas afaste-se, sequer pronuncie seu nome, não traga chacota ao ser imóvel, ou saiba o que é óvulo, casca, larva, proto-casulo em ninhada, transfomação que faz dela real taturana de fogo, filha do corisco, o que risca o céu e desce, um treme-terra, um fura-pele, e a paz se torna inominável ameaça — é quando búfalo volta! 
 . 
.   

Intranspugnável é uma palavra repelente, não se pode com ela, exército infalível, palavra cadeado, senha bancária, altar para Santa Bárbara, nossas belas praias são resguardadas ali, amores profundos, cuidado com filhos, não só por merenda ou ter com quem deixá-los, uma escola que se queira por trazer mais vida à vida, é a hora-aula de toda uma existência, labuta concreta e plena de sentidos, passos firmes e horizontes largos, uma pensão razoável por trazer fôlego a quem já está cansado — Intranspugnável — a palavra difícil, é vinho maduro, feito com uvas seletas, um desejo sincero escondido em certas feituras, comida de vó, tapa na mão de moleque quando teima na prova, espetáculo da mesa posta, o tempo dentro do tempo, o rito dentro do rito — Intranspugnável — um bilhete ecrito a si mesmo, com tintas de concreto e aço, vedado à cobiça, aos destemperos da cabeça, prédio que se edifica somente para os seus, mas que sirva exemplar para o alheio, o trato cuidadoso de quem não teme a força dos ventos, mas respeita — Intranspugnável — é o limite, o chão que se pisa. 



XANDU 
Pois sendo o dia DELA, não vejo motivo pra contrariá-la, não serei mais brilho que a coisa feita, nada mudará o céu que se entorna, se vem de nuvens em relampuê, em relampuá, deixe acontecer, deixo que a chuva molhe as linhas escritas, orações em lotes, os nomes nos papéis-zinhos, os poemas mais nobres colhidos com amigos, e mesmo a vontade de que tantos embarcassem comigo rumo ao seu altar, com um tempo desses é fácil desistir de véspera, já era de se esperar, então na celulose úmida, a leitura possível será em meio a rugas, rasgos, restos, poemas incompletos, pedir saúde e proteção a TODXS apenas com o peso dos pensamentos e lembranças vagas, e aceitar que o Sarau de Bárbara seja realmente bárbaro, um encontro distante, poetas molhados, o que mal se enxerga por trás da janela, presume-se: há uma grande festa vista através de um vidro embaçado, vidro onde salpicado em gotas, gotas que formam desenhos, gotas que escorrem em trilhas de raios, e de vez em quando brilham, em relampuê, em relampuá, dessas chuvas tão queridas para nossas florestas, que refrescam secas de primavera verão, sou como as sementes que brotam, crescem, galhos, frutos, sou mapa com estrela na testa, a tal hora estarei no trem, entrar na igreja é primeira tarefa, de lá partir pra quermece, reconhecer quem fosse, se houvesse pagode, baile funk, rodas de batucajé, barraca de abará, quitutes, e talvez meia dúzia de ilustres desconhecidos se façam amigos, sopa de pacote, falar poemas, contar causos antigos, e criar histórias novas que deixaremos para as crianças, nossas aventuras com Santa Bárbara, no bairro de Rocha Miranda — EPARREY IANSÃ VALEI-ME SANTA BÁRBARA!! 

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Mmmm
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