Poesia Dois Dois 2023
Marcia Curi
Breve ensaio sobre sonhos e mentiras.
Triste de quem precisa mentir
Pra se fazer notar
Ou q precise de subterfúgios
Pra chamar a atenção...
Eu não.
Mentira é caminho triste
percorrido na solidão,
Nunca sabe da grandeza
Daquele que carrega coragem
de ser exatamente quem se é.
Pertenço à outra ordem
Sou refém do meu coração
Me reconheço
e encontro reflexo
na solidariedade
na empatia,
na verdade
e na alegria,
Dos sonhos pouco sei.. apenas sonhei...
Feliz daqueles q sonham
E que seus sonhos
Carregam veracidade,
Pois sei que sonho que se sonha só,
é só um sonho,
Mas sonho que se sonha junto
É realidade.
- Marcia Curi
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Ana Neves
Para Cosme e Damião
Para amenizar as tristezas, doces são ofertados,
para reconstruir a alegria, um objetivo palpável.
É sim o microcosmo se transformando em macro,
o sorriso de um que se espalha a outro e outro
e assim o mundo mais alegre se constrói.
Partículas subatômicas de energia do bem
alinhando prótons e elétrons,
deixando o mundo neutrons para a reconstrução.
A doçura das palavras, as doces atitudes,
a cocada, a pipoquinha de canjica, o pirulito.
A cura para a a maldade é apresentada!
Doses e mais doses de felicidade trazem ao homo sapiens
a oportunidade de rever sua criança sapiens.
Ninguém fala da criança sapiens
mas quando ela surge e assume o poder
não há guerras, não há disputas inúteis
torna-se real a quimera.
Damião, domai as tempestades desse tempo,
transmuta o que está obscuro, em claridade.
Cosme, mantenha a ordem, a beleza e a harmonia.
Transformai, eres, nossos dias
em doces manhãs de infinita luz.
Ana Neves
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Flávia F. (Umamacabea_beat)
eu gosto d encontrar gente com sustância
sei que dizer isso pode parecer estranho
como se tivesse falando de comida
ou como se uma certa analogia com comida fosse ruim
e sim, n vou mentir
até tô lembrando daquele molho encorpado ou daquela massa al dente
ou mesmo daquela fruta consistente e sumarenta, a um só tempo
n me apetece gente seca
o encontro precisa ser regado, macio
o mundo já anda muito escarpado
delicadeza n precisa ser artigo tão raro
há que se regar o instante, temperar a hora fugidia
sustentar o olhar
deixa-me dizer
abre caminho que é uma beleza
em meio à tanta aspereza
torna úmida a terra e aduba o solo do encontro
tem sabores que só sentimos mesmo se nos demoramos
gosto de gente de verdade
q bota o corpo pra jogo
tesão maior é cultivar presença
gente atenta aos ritmos
q respeita Tempo
a gente percebe logo qdo segura a mão
cansaço de gente rala, rasa, q nada sustenta
nem um olhar, nenhum papo, nem um aperto
eu gosto mesmo do vigor de quem se lança
gente que desarma
que derrama
que descansa
chama acesa, fome e apetite
me apetece a mão quente
gente presente
quem se permite durar no instante
cuidar do fogo
soprar o encanto
dendê e pimenta
gente suculenta
que sabe ser aconchego
que é doce, mas arde
qual fruto da cica
gente que se lambuza
frouxo mesmo q sejam
só o quadril e o riso
encontro encorpado
q dá vontade d puxar a cadeira
mais um dedo d prosa
qdo tudo já é poesia
e qdo dá fé
é um xêro, um cafuné
um punhado de presente
ou como diz a canção
gente certa é gente aberta
e ainda que n haja, n há
certeza alguma, garantia ou nenhuma dessas besteiras
nem precisa ser romântico o q tô chamando aqui
qdo a única coisa mesmo que há é o tal do instante
quem n se guarda e é inteira, entregue
eu gosto é dessa gente
gente odara
e pra essa gente, aberta, intensa, imensa
eu só posso dizer sim
suspiro, rio, sorvo.
e posso ser, fogueira, abrigo, pouso.
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Flávia F. (Umamacabea_beat)
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Marcio Rufino
Tem criança na esquina,
Na encruzilhada,
Na calçada,
Na pista
Querendo doce,
Querendo bolo
Para adoçar
O perigo do dia.
São Cosme e São Damião
Transformai a glicose alta
Em misericórdia.
Marcio Rufino
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XANDU
Aquela ladeira da infância só existe enquanto desce, com velocidade e vento no rosto, a ladeira da infância possui rodinhas e curativos no joelho, na ladeira da infância o que mais se ouve é “cuidado, menino!”, rezas sussurradas, e tambores de aperto no peito, a ladeira da infância passa entre carros, desconhece o perigo, é feita de entrega, o corpo e a mente prometem risadas no final, a ladeira da infância é um clarão entre as nuvens, um pássaro, um feixe de luz nos olhos, passa rápido, a ladeira da infância foi uma piscadela ligeira e sincera o bastante para nos deixar totalmente apaixonados PELA VIDA
XANDU
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Fátima Regina Farias
Para não dizer que falo só de livros
vou falar de outras coisas
adoro coisas
todo tipo de coisa
principalmente
as que são jogadas em um canto
um palito de fósforo usado
um pincel careca
uma gillete sem fio
essas coisas insignificantes
que passam despercebidas
a comuns olhos
adoro
olho com vida para elas
as carrego para casa
as trato com carinho
durante minha vida até aqui
foram muitas coisas encontradas
entre elas, pessoas
que se sentiam "coisas sem sentido"
-larga disso homi, lugar de coisa é na mochila lugar de gente é com a gente, vem, caminha comigo
entre pedras miúdas
um dia um grilo me olhou bem dentro dos olhos dizendo que não era coisa
-tá bom seu grilo, tá bom
esse fato me deixou muito pensativa
o pensamento também pode ser considerado uma coisa sabe?
essas poetas são todas doidas
parecem coisas
voltando ao grilo
logo que pediu clemência me deixando encantada
deu um pulo altíssimo
sumiu entre as tantas coisas rasteiras por ali
fiquei pensando...
se um grilo não se considera coisa
não aceita ser tratado como tal
como existem pessoas assim tão des-coisadas?
é de ficar pensando mesmo
enquanto penso transformo pensamentos e trajetórias
sei que um dia fui menos que coisa
sei que para muitos não passo de uma coisa
uma coisa que produz e muito
hoje em dia produzir arte é raro e valioso.
Fátima Regina Farias
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Gringo Carioca
(sem) parar
minha mãe me disse:
pare de inventar!
meu pai me disse:
pare de chorar!
meu irmão me disse:
pare de incomodar!
meu amigo me disse:
pare de imitar!
minha professora me disse:
pare de falar!
eu lhes digo:
parem de me parar!
estou só começando...
Gringo Carioca
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Giglio
existia ali
os gêmeos Ibeji
amados e solidários
crianças alegres e arteiras
como devem ser
havia ali
os gêmeos Ibeji
sempre brincando
mas Iku também havia
sempre a espreita
e certa vez
a aldeia dos gêmeos foi rondar
e sem distinção
quem no caminho passasse
jogava seu bafo na cara
levava embora
matava
e assim o tempo passando
todo mundo morrendo
os gêmeos ficaram sabendo
e pro caminho foram correndo
armaram um bom plano
enquanto um ia se escondendo
tum tum tum
o tambor o outro ficava batendo
a música era tão boa
Iku começou a dançar
não conseguia mais parar
nem conseguia notar
os gêmeos se revezar
tão cansada a morte estava
só pedia pra parar
fizeram então um acordo
Iku iria se afastar
devolveria quem levou
o gêmeo escondido se mostrou
Iku vingança jurou
foi embora
se mandou
foi assim que terminou
com todo mundo dançando
viva Ibeiji e o tambor
salve salve criançada
viva a festa
Onipé Ibéjì
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Giglio
(Volta Redonda/Ilha Grande)
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Pedrão Guimarães
Cacura
Envelhecer é a arte de perder a vergonha na cara . Minha filha.
Pedrão Guimarães
(Chineladaaa - ÉssePê)
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Xandu
São Cosme Damião é criança jogando bola na sala, se o vaso tomba vira a adulto rápido - um tal de esconder os cacos, a mãe nem vai notar 🙄 que a flor deu pinote
Xandu
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XANDU
O Lugar, galeria de arte que se escreve com xis, uma cruz no mapa, pra cavar com uma pá, o tesouro, se for pra pular com um só pé, pererê era o vento, na boca do povo: o pirulito, no cabelo: o chiclete, era um moleque, protesto que se escreve com tinta invisível, era um teste, pedra lançada a esmo, sem mira ou malícia, sem treino: foi na testa, dá nos nervos, ter que ler o que foi escrito a contraluz, com limão, isso não basta, tá de trás pra frente, anagrama, ou matemática em bom português, trocar pê pelo bê, a pelo cê, a cada três sílabas corta a vogal, agora já dá pra ler, debaixo do bandeide há deuses, casquinha de ferida e atestados do pique pega, sangue que escorre o cuspe estanca, dá beijinho no dodói pra sarar, a carta em desenho disforme era a cara do pai, gargalhadas, vai estudar menino! bilhete lido, tampe as vistas, contar até cem não tem graça, enxergar entre dedos aonde se esconde - O Lugar, uma galeria de arte se escreve com xis, o tesouro: era Dia de Dois
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XANDU
EITA! Aquela tristeza profunda de setembro, dor maior do mundo, filete d’água que se esgota, folhas caídas no chão, o tronco nu, os galhos secos, desses, que ameaçam tombar e quebrar o telhado, isso é tristeza e saudade de mãe, tristeza de ninho, de quem dorme encolhido, isso é tristeza de quem está só, sem carinho, xamêgo, sexo, longo inverno, meses desse jeito, nem o desejo parece mais existir neste peito, nem nos olhos, sequer um resto de encantamento do mundo, viver o setembro profundo que escurece as manhãs, tenebroso setembro quando somem as forças, um setembro doença, de passos presos, cambota das pernas, sem oxigênio nas narinas, setembro para jovens com pele enrugada, andar macambuzo, mãos trêmulas, atenção dispersa de quem já não atende pelo nome, olhar aéreo, setembro magro e sem fome, sem solução nem remédio, um setembro na iminência de… já está quase lá… vai acontecer… - ihhh pisou no cocô do cachorro! - setembro exposto, a molecada em risadas lhe aponta na rua, o sapato sujo, o ridículo da existência lhe mostra que a vida é só uma, não há socorro, só resta rir junto, rir de si mesmo e de todos, rir com todas as forças, e o vento morno, o sol na face, já nasceram as flores, então salve a primavera e a profusão de cores! e finalmente um sorriso, findam-se as dores, eis que de repente setembro foi-se!!
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Paulo Sérgio Kajal
Floração
De primavera
O que se espera
Do amor?
Tantas quimeras
Rostos de fera
No mar
Na flor de Shangri la
Cor de mistério
Floração
A sangrar
A tingir
De rubro viver
Colorir
E cobrir com o que o céu de setembro
tem a servir
Paulo Sérgio Kajal
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Walmir Aragão
Se liga no toque amigo
E venha então batucar
Sou da rua sou da casa
Eu sou, sou de qualquer lugar
Sou ralé sou nobreza sou sociedade em convulsão
Sou criança sou adulto, quero ser um ancião
Existe remédio mais temido que a doença
Só a cultura e a crença vai ter o poder de curar
Ruas percorridas com espinhos
No túnel uma escuridão
Vem um clarão que é São Martinho
Eiê, eiê, eiê Banda Erê
Eiê, eiê, eiê... BANDA ERÊ...
MÚSICA PARA BANDA ERÊ
DA FUNDAÇÃO SÃO MARTINHO!!!
Depois te mando a melodia!
Bom final de domingo 🎶🙏🏿🪘
Walmir Aragão
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Vivia RAC
Doum
Doum, senhor menino.
Ere, "pré sete"; pressente o tempo,
acompanha os irmãos, cuida e evita o perigo
Ere peralta, pequenino no tamanho, porém
a alegria exalta.
Guia teus pares, sorri pelos ares. Traz vida na brincadeira.
Nos livra do mal
Corre livre, criança de todas as bandeiras.
Vivia RAC
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Aquele salve do Luiz Fernando Pinto:
“Dia de São Cosme e Damião era uma das datas mais marcantes para um moleque morador da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
O ano inteiro brigava com o sono, e mamãe sofria para me tirar da cama às 06:00. Acordar cedo para ir a escola sempre foi um sofrimento. Minha mãe até que me ajudava. Me vestia com a roupa do colégio quando eu estava dormindo. Já acordava pronto para ir a escola. Banho só na noite anterior. Dois biscoitos maisena e um copo de leite serviam para me deixar de pé. Com o passar dos anos, fui revendo essas estratégias de minha mãe.
O único dia do ano que acordava disposto e sem os chamados de mamãe, era o dia de São Cosme e Damião. Um dia antes eu procurava no armário o maior pote que ali habitava, serviria para colocar os doces adquiridos no dia seguinte. Não sabia se Cosme era irmão de Damião, mas naquela época não importava muito. De mochila nas costas lá ia eu e os moleques da rua Carnaúba a procura das guloseimas. Tínhamos uma grande rivalidade com os moleques das outras ruas. Num certo ano, quase morri atropelado por um fusca amarelo na rua Taquaral, a rua mais movimentada do bairro. O dia terminou mais cedo pra mim naquela data. Contaram para meu pai e além do sermão: “A vida é mais importante do que dois sacos de doce” me colocou de castigo durante todo o dia. Ficar de castigo no dia de São Cosme e Damião traumatiza qualquer criança.
Minha mãe juntava suas economias pois sabia que gastaria um bom dinheiro com as caries adquiridas por comer doces o mês inteiro. Ida ao dentista sempre fez parte do meu cotidiano.
O doce que eu mais gostava era o peitinho de moça, comendo eu me sentia como gente grande. Cocozinho de rato também era um dos meus favoritos. Deixava meus amigos com inveja quando pegava um saquinho de doce contendo Serenata do Amor, era uma raridade.
Todos os anos tinha que passar no terreiro do pai Mauro, ele guardava os melhores doces pra mim. Alguns amigos não comiam doce de terreiro, a mãe deles diziam que o doce daria dor de barriga e vermes gigantes, nada que Licor de Cacau Xavier não resolva.
Hoje vejo que as coisas mudaram, o relógio já marca 11:21 e meu irmão de 15 anos ainda está dormindo. Não se faz dias de São Cosme e Damião como antigamente!”
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Eu, Você e Só
De: Glad Azevedo
Ver você no play do prédio, a parede da casa de brinquedo já guardava nossa melhor obra de arte; Eu, você e só. Escorregas e cadeiras de balanço, engarrafamentos de elevador, corrida de escadas. Era só você e eu e só. Entre banhos de piscina e sauna a vapor, pinguins de geladeira. Eu, você e só. Calda de caramelo e chinelo virado na sala, mil tapetes voadores em nossas cabeças de fumaça, pipoca, filme e sofá.
Era eu, você e só. Imaginação. Eu, você e só.
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