Poesia Pra Dois Dois (2)
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Poesia Pra Dois Dois
1) Boi carreador
de: Paulo Sérgio Kajal
Vou fazer exconjuro na noite de Santo Antônio
amarrar teu nome no galho da amoreira
teu nome secreto na palma da minha mão
e saber que amor é sentimento tão estranho
procurar numa noite teu rosto numa feira de São João
mas eu não sei a quem amar também
colocar nome na amarração
eu invento fatos, eu confundo traços
eu misturo os sinais
Não sei se eu gosto de quem desgosta de mim
folha de abacate, nome na cebola
bacia de ágata com mel e limão
eu quero dançar entre as estrelas vê-las
pisando no passo do baião
moeda pro alto, boneco de pano
papel com teu nome
na palma da mão
Boi ,boi, boi
Boi de lua e mar
pega essa pessoa que tem medo de amar
boi boi boi carreador
mostra a pessoa que pode me dar amor
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2) Boteco Teco
De: Dário Omanguin Farias
Nos botecos da vida encontro a alegria
Percorro o balcão pelo chão de ladrilho.
Falo de botequins tipo "Antigo"...
Onde a cozinha, era só de boa comida.
E encontro costela assada com batata
Jiló recheado e fatiado de salaminho
Também, tremoços, chouriço e peixe frito.
Mas não é só disso que gosto no boteco
Uma boa música e conversa fiada
Um instrumental e o cantor de samba.
O garçom é peça importante com seu avental
Com ele, enxuga o suor da testa.
Também limpa a mesa e esfrega no copo.
Bom mesmo é a cerveja gelada
Cuja garrafa vem nevada
Na cozinha, a Negra mexe a panela
Logo, logo na vitrine tem moela
Também tem linguiça e bucho ensopado
Cozinheira é sempre o carro chefe do boteco
Sem seus segredos e dotes culinários
A comida insossa não me agrada
Então, percorro a sarjeta para outro bar
Feliz do portuga, dono do boteco
Que tem uma cozinheira que me agrada..
Ah! Também não pode faltar uma calçada
Boteco sem mesa na rua...
Esse também não é bom
Como beber uma gelada e não flertar
As moças transeuntes são boas de olhar
Entre um gole e outro e um piscar de olho.
A vaidosa sabe do nosso carinho
E desliza pela rua como estivesse a desfilar...
Esse é um cenário legal de um boteco
De dedo levantado...
Digo: - Garçom mais uma gelada!
Que bebo de bom agrado
Embora solitário, vejo a vida passar
Cheio de elementos para poetizar.
Depois da conta paga...
Saio para flanar.”
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3) Campo Grande, Cidadela do Caos
De: Tiago Malta
Os físicos comprovaram:
Que depois da lua vem o sol
Sempre o mesmo tédio
Sempre o mesmo prédio
Que guardam histórias e pessoas incríveis,
Que nem imaginam,
E chamam suas aventuras heroicas de segunda-feira.
Rio de Janeiro, 4 de outubro de 2002
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Erêzada Em 16 POEMAS
**coisa velha reescrita, coisa nova e unédita, um mix
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Erêzada .1 (xandu)
“Cuidado pra não dar com a testa na borda da mesa, pra não bater com a cabeça na quina, nem pense em olhar pra ponta da faca, cuidado com a tesoura - isso corta! o copo caiu? Cuidado com caco! tudo que tem ponta: quando não espeta, fura; tudo que é duro, quando bate ou machuca ou faz um galo. Portanto, cuidado…”
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Erêzada .2 (xandu)
“Todo aniversário a gente assopra bola, e põe na parede, a gente assopra a vela, e põe bolo no prato, come, bebe um suco, depois bate pega, brinca, pula, corre pro ventilador pra tomar um fôlego - um copo gostoso de ar.”
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Erêzada .3 (xandu)
“Caixa de gato - parede, parede, parede, paredes se encaixam, um chão que se pisa, sobre a cabeça um teto, e um menino lá dentro, feito gato.”
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Erêzada .4 (xandu)
“Bom a beça é brincar com blocos, juntar peça com peça, encaixar de várias formas, de um jeito que os blocos montados criem castelos, onde moram princesas, ergue-se a casa, onde vivem bonecas, quase sempre louras, quase nunca pretas, muito raro a criança em meio à pobreza erguer casas como essas, com janela, jardim, chamoné, lareira, entender o barraco como brincadeira - um tijolo por vez faz-se a lage, casinhas da vida real...”
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Erêzada .5 (xandu)
Ciranda é uma dança que se faz de mãos dadas, na cantiga de roda, o que se vê do outro lado é uma outra criança, o que uma canta de lá outra canta de cá, sua voz, parece muito ela mesma, criança igual a criança, na dança de roda, na roda que gira, cada pisada no chão a terra treme, o vento assopra, o mundo se move, o sol sempre acima.
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Erêzada .6 (xandu)
Vários rabiscos de caneta bic na pele - criança?! - só vi tatuagem
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Erêzada .7 (xandu)
Parede de dentro, parede de fora, BOLA, pula pra todo lado, se chuta na sala ela derruba o quadro, ela bate no teto, ela sobe na mesa, esbarra no prato, derruba o copo - bola brincar lá fora?
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Erêzada .8 (xandu)
O peixe nada porque o mar é mole, a chuva molha porque a roupa é seca, pelo copo d'água dá pra ver a cara de quem está do outro lado, se a piscina é azul, se o xixi sai amarelo, porque que a água tem cor de nada?
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Erêzada .10 (xandu)
Gostoso é chocolate ao leite, cachorro branco com pingos de chocolate, cachorro marrom com pingos de leite, leite cor de cachorro, late, pula, abana o rabo, mas nem todo cachorro é malhado, nem toda criança tem pintas na pele, bota no copo um leite com chocolate, criança e cacharro bebem!
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Erêzada .11 (xandu)
O peixe nada porque o mar é mole, a chuva molha porque a roupa é seca, pelo copo d'água dá pra ver a cara de quem está do outro lado, se a piscina é azul, se o xixi sai amarelo, porque que a água tem cor de nada?
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Erêzada .12 (xandu)
Dar presentes, receber sorrisos, mostrar os dentes, receber mordidas, crianças sorridentes desconfiam dos cães, matilhas ladram e mordem, é uma certeza que a natureza ensina aos nervos, adestradores ensinam as crianças a dar a patinha, os cães nem desconfiam que certos presentes são propinas, sentimentos travestidos de biscoitos caninos, meninos abanam seus rabos e pulam, abocanham no ar as balas jogadas pelos adultos, alguns ganidos são tristes como o choro dos meninos, a cada visita dos tios os cães aguardam presentes, na sala de aula é preciso fingir-se de morto, rédea curta, meninos sorridentes também podem morder professores, ao comando: o cão senta, ou ficará sem recreio, não ganhará presente o menino que não escreveu, num leu? o au-au mordeu, o menino latiu, mijará pela casa até dar-lhe com o rolo de jornal, cachorro levado tirou outra vez notas baixas, mal educado deste jeito será para sempre menino, uma lástima saber que o destino reserva uma vida de cão... eis como nascem os lobos: um adulto suborna um cachorro para que seu sorriso pareça sincero; há um exercício de fé: a esperança na infância é um adulto que é feito de bobo desde criança...
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Erêzada .13 (xandu)
Vovó tocava a gente com seu bordão de sempre: "criança na cozinha? dá piolho de galinha!" - não servia pra nada, criançada é igual mosca, marca em cima na feitura dos doces, só quem sabe daqueles vapores de caldas de chocolate quente, do coco banhado no leite, do cheiro de bolo no forno, bandeja de pé-de-moleque, cocada, doce de abóbora, fatias de formigueiro, a bala de caramelo que gruda uma vida nos dentes, "arreda, senão azeda", já era ultimato, na próxima chamada o perigo viria com o peso do chinelo, us moleque com cara de santo, os dedos melados, sair correndo acontece, salvar a pele, preservar a vida, até que chega o dia vinte e sete, aguentar a missa e depois salivar com saquinhos de São Cosme Damião, com tudo dentro: canjica doce, cocô de rato, bala juquinha, e a Maria Mole somando com as tantas guloseimas feitas em casa... O tempo passa, as tradições se acabam, as receitas se perdem, e a vó se vai - a gente envelhece com o cheiro daquela cozinha entranhado pra sempre nas fossas nasais...
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Erêzada .14 (xandu)
Já não fazem crianças
À granel
- como nas antigas
Nem colares de balas
Embrulhadas
Em papel Celofane
(de cores!)
Balas feitas em casa
Com açúcar queimado
E lascas de coco
Cravo
E gengibre
Nem fazem mais
Pé-de-moleque
Um bloco melado
Cravado de amendoim
O tipo de herança que
Já não existe…
Nem a bandeja de vó
Passa pra mãe
Nem a panela de ferro
Fica pra filha
Nem quase Tia Baiana
Cuscuz e cocada
Muito pouco se vê…
Vieram as sacas de balas
Montadas em série
Máquinas de cáries
Onde as receitas se perdem
Pra que lado que mexe
A panela?
A colher de pau?
Não se sabe
E cadê areia?
Para ariar a tralha
Lavar agora é suave
Já inventaram teflon
Nem os meninos se melam
Não em compotas
Em cumbuca
Não tocam
O tacho não raspam
O doce de leite tem marca
Vem em lata
Onde se cortam
E quando acaba
Joga-se tudo fora
Embalagens talheres
Guardanapos pratos
Tempos atuais
Tudo prático
Tudo plástico
A molecada hoje avança
Passou fliperama
Lan house é relíquia
Console ainda é caro
Rolézinho?
Só marca pelo celular
Pra quê praça?
Sequer bolas vão nas vidraças
Pipas ao alto
Não voam
Isso também é um alívio
Estão livres de moca
Lanhada de vara
Nem surra de cinto
Tamanco já não fabricam
Estão livres de deus
Limpos de santos e orixás
Procissões ladainhas folguedos
Nem milagres
Nem encantamentos
Nem mágicas
No máximo bíblias
Exercícios de blablablá
E jesus violento
Reverendos e padres que atacam
As macumbas dos outros
Hoje deus fala alto
Pra não falar só
E cerca entre quatro paredes
Trancado e estanque
Lá fora é o diabo
E haja sal grosso
Que salve as crianças
Nem os batuques mais
Perturbam a vizinhança
- agora só baile funk
E disso não falam
E tiro
Meu cavalinho da chuva
E
Deixo
Um verso
Muito Antigo
“A infância encapetada
Em que habito
Sauda a criança levada
Que ficou de castigo”
Mas hoje é domingo…
Acho que já tá bonito
Já pode descer pro play
Um litrão de refrigerante
E uma saca enorme
De salgadinho crocante
Sorvete, balas, chicletes
E a tentação que te emagreça
“Só por hoje”
É um bordão de guerra
E igreja
E terapia
Que só Freud explica
Cultura - só pela vida…
Como nascem os erês?
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Erêzada .15 (xandu)
Disseram
Que ía chover
Não choveu
Veio como
Um veio
Em véu
Um velho
Quem fomo?
Fomo
Afestejar 22
Em Oxalá
Um esteio
Apesar de
Projetis
Que projetais
Protejei Ibejis
As transformações
O Machado
De Lima
E Barreto
De Assis
Protetor do tempo
De Prometeu
Proclamou-se quaibo
Giló
Coentro
Profanou pipoca
Agora aguenta!
Proletários dumundo
Uni-vos!
Procastínios
Moribundos
Em vosmecê
Penetro
Com flechas
Na mente
Onde tranca
Projetos
De projetil
Do metrô
Do trilho
Onde se descarrilha
O futuro promissor
Projeções
Que agora impelem
A protejer minha pele
Ter um projeto próprio
O mesmo que
Protetor da prole
Oxalá em 22
****em diálogo com Lúcio Celso
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Erêzada .14 (Berê Nice Xavier)
Ato
Bala
Rodo
Na hora H
Gira
Roda
Acerta
Mata
(Cruz Credo!)
Axé Amém Evoé !
Reza
Reta
Curva
Desvia
Deriva
Erra
Salva
Evoé Amém
Muito axé!
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