Sarau de Bárbara 23

Sarau de Bárbara 2023 COMEÇANDO OS TRABALHOS . 
PAULO KAJAL - 1 

Antes da tempestade, o cheiro dela, a vibração, a movimentação do ar, a nebulosidade e o estranho pássaro que ronda a escuridão. Talvez seja apenas um brado, um grito, uma precipitação e nada mais. O pássaro prenuncia a tempestade como quem traz o anúncio da guerra. Ave estranha a quem enxergo na formação do tempo. No redemoinho dos ares. No farfalhar das folhas. No tamborilar dos vidros das janelas. E depois do temporal ou da guerra, abundância ou calmaria? Me diga, sombrio pássaro que pousa entre as parabólicas. Tão belo e corajoso, bravo ser de aparência frágil. Tuas asas suplantam o tamanho do teu corpo. Nunca sei quando teu canto traz a verdade ou traz o logro. Mas em todo engano, há o acerto. Em todo tropeço, im indício, um sumário. Cante, cante pelas bordas da noite, magnífico pássaro. Semeia a tempestade, espalhe a semente, abra o fruto com sua bicada, ave silenciosa , agouro e sorte da madrugada. 

Paulo Sérgio Kajal 
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Paulo Kajal - 2 
- de Iansã 

Quero tua língua pra me banhar de amor. Tua língua e tua saliva me refrescam. Na tua umidade, me protejo do calor. Tua língua, os teus lábios e as gotículas do suor me encharcam. Refrigério, chuva e água fresca. Banho de rio sobre teu corpo. Olho d'agua. Lençol freatico se estendendo em nossa cama. Minha lava encandescente fervendo teu riacho. Na profundidade do ser, eu te mergulho, se afogo , você me resgata. Eu nado até tua piscina, mas até agora, entre nós dois, por conta do tempo, nada. 
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XANDU 1 
Quando o sol de 40 graus ameaça amolecer a mangueira é quando pinta uma modelo de bikini, pronta para lavar o seu carro - então esfrega, esfrega um sabãozinho, acaricia com bucha, passa a escovinha, então esguicha, esgüicha aquela ágüinha chuá! aah! ooh! aah! . 
*para Karla Sabah 
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XANDU 2 
Eu te alimento de vilipêndios, e você? Vive aos gritos, não diz palavra sem voar perdigotos… Vale pensar. Não fosse o meteoro um astro, diria: “por isso? nem vale a pena morrer” - taí: gaza é um paraíso pra quem crê em estrelas cadentes, faça um pedido. BUM! …Próóóóximo!
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XANDU 3 
Sabe aquelas criancinhas chorando a ausência dos pais? aquelas muletas que irritam taque taque quem está de cadeiras de rodas? aquelas faces tortas de tanto levar pancadas? aquelas pessoas todas que juntas dançam moon walk e gritam thriller, fazem cosplay de walking dead, figurinos de família adams, sabem? Pois já não fazem mais nada - benvindos aos hospitais da faixa de gaza
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XANDU 4 
Respeita o chão de caquinhos que tu pisas, rega de mangueirão os fragmentos da cerâmica incandescente que te queimam os pés, são os cacos sagrados, ora rubros, ora amarelados, ou negros, como os corpos que por hora ali habitam, e bem diante dos óculos escuros a paisagem se despe como um asfalto calmo, maroto, suado, num swing suburbano que só, são torresmos fritando os miolos e capirinhas dando refrescos, crônicas de um mangueirão molhando o crânio e o calçamento, funk tocando alto sob o sol radiante de um domingo qualquer de verão! 

***para Jefferson Placido 
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XANDU 5 

Tomar as rédeas do próprio destino, isso exige um impulso, faço agora, não sei se você verá como queima de fogos, ou mais sutil, um murmúrio, talvez fique curioso ao ler “conteúdo indisponível”, um destino besta para distraí-lo em suas noites de insônia, o lance é que tenho duas maracas nas mãos e toda força do mundo, eu sacudo as maracas e por este gesto: vem chuva, e por este gesto: a guerra acaba, e por este gesto me livro de um destino confuso, tudo muda, é o que vem escrito no terceiro penacho à esquerda, esses penachos enfeitam as maracas, e dão aulas, são marcas de pássaros raros, sacudo as maracas e as sementes atraem falas, são essas sementes que dizem, faz mais alto, geme forte, cante como canta a cotovia do norte, sacudo as maracas e os penachos já batem asas, estou à metros de distância dos edifícios, sou feijão saltitante, trago o solo em desapego e deixo a cidade por cima, gemidos, cantos, força nos braços, alguém desperta aos som dos pássaros, mira o sol no horizonte, sou apenas um ponto, um fotograma nas retinas, o sol e as asas enquanto transportam as sementes, eu sou a cabaça, enquanto chacoalho e canto e sigo entre as nuvens pra longe, desconheço o infinito, em minhas maracas carrego meu próprio destino. 
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