Bárbara 2023 - O TEXTÃO
O TEXTÃO
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SANTA BÁRBARA DOS RAIOS
Gente modesta,Gente boa do subúrbio,Que só comete distúrbio,Se alguém os menosprezar,Aquela gente,Que mora na Zona Norte,Até hoje, chora a morte,Da estrela do lugar. . .
______ Nove anos assim: dia de Santa Bárbara, quatro de dezembro, uma pá de poeta fazendo festa em Rocha Miranda. Era 2014 quando veio a pergunta “vamos fazer um Sarau de Bárbara?”, ideia do Paulo Kajal, mas a coisa já vinha de nossos duplos desenrolos… Ele poeta suburbano, freqüentador de Madureira e adjacências; Xandu também poeta, e vinha de longa estrada no que ele diz “passeios sentimentais” - ir na Festa de Santa Bárbara já lhe era um pedaço de história familiar. E apenas por essa poética do olhar, sem grandes vincos de chão ou gentes, foi o que bastou pra iniciar nossa longa aventura: fazer da festa em Rocha Miranda um enclave de poetas.
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______ Subúrbio profundo, saca? Claro que não. Eu mesmo, escrevendo aqui, e não entendo nada. Futebol, né? Rap, forró, samba, o gospell, bailes, festas, guerra de sacolé, paintball, pipas, louvores... A TV mostra assim. Mas tem a cultura “velha”, vivências “dazantigas”, catolicismo “de vó”, e aquelas “macumbarias”, com suas ervas e rituais, culinária e ritmos - TUDO O QUE NÃO ESTÁ NA MODA. Povo preto, pardo, branco, indígena, daquele jeito TODOS MEIO MISTURADOS, pois uma chave para mil preconceitos… Se falar que o lugar é “longe” e o transporte é precário, daí o caldo entorna de vez. Então o Sarau de Bárbara já nasce com esses desafios todos, no mapa, na cultura, nos tipos humanos, tudo envelopado numa arqueologia da religiosidade popular. Um subúrbio profundo, saca?
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______ Cultura é um troço que muda, atualiza, mas uma parte fica, seja agarrada na língua, no sotaque, seja no gesto, e é “profunda” no jeito e no trejeito do “carioca raiz”. Precisa ir até lá, banhar-se nessa cultura viva, vê-la potente, digna, revolver suas camadas. Cantado por Chico Science, dali me veio o nome de Josué de Castro, intelectual que usou de “passeios sentimentais” como senha para entrar na zona cultural dos manguezais de Recife. Banhou-se em vivências pesqueiras, mocambos em palafitas, onde viu grande poesia: o homem-caranguejo. Pois Josué de Castro escreveu sobre geografia humana e alimentação; aqui tratamos de religiosidade “profunda” dos subúrbios cariocas, e assim a Festa de Santa Bárbara tornou-se um “mangue” a ser devorado por “poetas-caranguejos”.
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______ Antes mesmo de 2014 já tinha ido a umas dez festas ali, sempre no dia 4 de dezembro, e muita coisa mudou. Teve um tempo de repressão aos tambores, sem cadeiras para sentar, representando seus terreiros, ficavam um ou dois pequenos grupos pela calçada, que as irmãs pediam energicamente para silenciar. Fui uma vez de manhã para encontrar as massas devotas, mas que não enchiam a paróquia. Fui numa tarde, também de pouco movimento, rezei, e na saída quase arranjei namorada, daí o irmão ciumento apareceu - o angu desandou. Fui de noite, num tempo ainda de poucas exaltações festivas, vi a queima de fogos, o andor, a procissão - uma fé sincera, sem as grandiosidades de uma festa de São Jorge, por exemplo. Mesmo os bares, se enchiam, eram só os vizinhos, e os ébrios tradicionais, eu como visitante, e dos três butecos que existem, um está a venda.
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______ De repente, houve uma troca de sinais. A forma do catolicismo atual, “prafrentex”, pode ser notada nas reuniões JMJ da juventude: os africanos levam tambores pra missa. Isso, o entendimento dos paroquianos dali mudou, assumiram “dar gás” a festa, abrigar seu entorno. Então hoje vemos as missas lotadas, um esquema grande de barracas, e muita alegria na rua. São pulseirinhas e artigos religiosos, guloseimas e belisquetes “de feira”, mais as “baianas” da cocada e do acarajé, e outras, com pagode e cerveja. Soma-se um mar de ambulantes, vários tambores, cânticos e danças de terreiro - a festa ficou uma beleza! As famílias de Rocha Miranda e arredores tem dado um show de cultura.
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______ Por um dos acasos da vida, é Xandu herdeiro direto dos latifúndios culturais que estão presentes nesta festa suburbana. Em dias de raios e tempestades, cada estrondo era seguido da evocação “Santa Bárbara, São Gerônimo!” - a família em uníssono. Era a casa da Vovó Neném, sede espiritual da família “ampla”, ficava no Catumbi, e a faixada era ornada com ladrilho e São Jorge pintado - proteção para o lar. “Santa Bárbara, São Gerônimo!” - pessoalmente, cresci revoltado com os cerimoniais e costumes medievos da igreja católica, sempre meio brutos, monótonos, e fora da sintonia com os colegas de escola. Já na universidade, li sobre os tempos e os modos do Brasil Colônia, as culturas étnicas, as revoltas, as quarteladas da república, o americanismo, mais essa democracia capenga que taí - estudar deu um respiro no cérebro. Ainda dói, mas dói menos. No bairro do Catumbi as marcas étnicas eram bem delineadas, portugueses, italianos, poloneses, ciganos históricos, as famílias negras da Mineira, do São Carlos, cariocas dazantigas… E lá em casa era assim: “Santa Bárbara, São Gerônimo!”
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______ Eu falava de Rocha Miranda, pois bem: com vasta literatura na mente e “passeios sentimentais”, pude atravessar o portal. Levei amigos em passeios pelo Centro, para ali (re)conhecer as igrejas “velhas” que minha vó frequentava (e me levava junto); fui aos subúrbios com pagodes e rodas de samba, fui aos terreiros de candomblé e tendas de umbanda, e daí desceu mais um raio - “Santa Bárbara, São Gerônimo!” Saindo da boca de minha vó isso nem de longe tratava da dupla de orixás Iansã e Xangô, como dizem por sincretismo - ela (e a família toda) era católica, carola! Mas o neto então buscava “manjar dus paranauês”, fazer as pazes com o passado, e acrescentou algo novo: passeios sentimentais.
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______ Sorte foi ter bizavó como Vovó Neném, a quem conheci já meio cega e esclerosada, mal reconhecia as pessoas, mas repetia histórias “velhas” - O OURO! Pois foi quem morou em Rocha Miranda, três gerações nossas nasceram ali, por tronco “de vó” foi migração do interior cafeeiro para vir morar no Sapê. Sair do Sapê pro trabalho era dito “viajar pra cidade”, dois trens de manhã, dois a noite; na volta ora saltavam na “parada Sapê”, ora Turiaçú, ora usavam o ramal Rio D’Ouro da Leopoldina, ora “linha auxiliar” da E.F.Central do Brasil (1892). O trem era a base daquelas memórias vagas, desde a ocupação seminal da Fazenda Sapé, já cortada pela ferrovia (anos 1860), terras que passaram aos Rocha Miranda em 1916, que enfim urbanizaram nos anos 30 e 40. E o que era apenas uma “parada”, ergueu-se em cimento como estação, a murada dos trilhos subdividiu o bairro, e do antigo nome restou o “morro do Sapê”, uma favela.
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______ Já com a urbanização em alta, na década de 50 foi construída a igreja de Santa Bárbara, de arquitetura moderna, que o sambista Roque Do Plá imortalizou numa canção que traz aa memórias do “Antigo Sapê”. O samba se inicia falando da “praça das Pérolas, que fica bem de frente a estação”, e termina exaltando sua atualidade: “agora temos uma igreja avançada onde a minha namorada faz as suas orações!” Pois esse trajeto da “estação” até a “igreja avançada” é própria Rua dos Topázios, um eixo central para o bairro. Plena de comércio e serviços, começa na rua das Safiras (margem da linha férrea), cruza a praça e a Rua dos Rubis, passa Diamantes, e vai até Bárbara, atiçando o imaginário… Suas ruas formam “o bairro das pedras preciosas”, daí uma caça ao tesouro é instigação recorrente. Naquela região, entre Sapê, Turiaçu, Colégio, existiram muitas pedreiras, e… claro, explosões de dinamite. Isso torna a padroeira local bastante coerente com as necessidades, pois quem protege os mineiros (e os bombeiros!) é Santa Bárbara, foi o que a família da Vovó Neném aprendeu por ali. E ainda tinha o Tio Teodomiro…
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______ Irmão de Vovó Neném, Tio Teodomiro era motivo de grande orgulho, nosso Paulo de Frontim particular, pois “Era preto, engenheiro, a-de-vo-ga-do! E era Preto!” - dizia escandindo sílabas, um cara foda! Agora imagina: ela nasceu em 1901, Teodomiro deve ter nascido logo antes da abolição, trabalhou com registros urbanos, delineou a baixada fluminense (a verificar). Mas o que importa, na boca de Vovó Neném saiu essa tirada: “Preto tu?! Pretu-Tu-Tuu!” era seu grito de orgulho negro, que aqui nem vou esticar porque isso rende. Da casa no Sapê uma imagem de São Jorge me foi deixada de herança, eis uma relíquia que me liga a Rocha Miranda como museu vivo.
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______ Paulo Sérgio Kajal, fundamento no Sarau de Bárbara, assim como a maioria dos pretos que eu conheço, não guarda muitas “coisas de vó” - na verdade, eu sou uma raridade nisso… De certo, Kajal nasceu com “coisas de vó” por dentro da pele, na alma, com seu espírito fáunico, um cara de dança, teatro, e um poeta show-man. Em suas nostalgias, a mãe ganha destaque: pois longeva, tem mais de 90, e lhe contou tudo do babado!
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______ Dona Regina, o nome dela. Mas “dona”? isso é agora, pois historicamente viveu a área de serviço dos casarões de Botafogo, que faziam dupla com os patios dos cortiços dali, donde foi cria. Esses cortiços que as políticas modernas botam abaixo, erguem-se prédios, e dali a família é tocada pra viver a zona norte. Várias moradias de aluguel, até que pinta Engenho da Rainha - um reduto de artistas da cidade, um lugar para se fixar.
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______ Bairro desmembrado da antiga freguesia de Inhaúma, a tal rainha desse engenho é ninguém menos que Carlota Joaquina, a espanhola que enrubecia a parentela, e pelo que dizem: era naquela freguesia afastada onde ela podia ser livre, amar e ser amada. A localidade também serviu de “aldeamento” para os índios Tamoios, daí através dos nomes da ruas algumas etnias nativas ganharam destaque. E Dona Regina é pedaço vivo da cultura carioca, dançarina no conjunto de Herivelto Martins, um ícone de sambas e marchinhas. Ele foi artista de palco desde os 3 anos de idade, sempre muito ativo, em tudo a que se propôs. Foi poeta, violeiro, palhaço de circo, até a consagração no samba: ganhou a Era das Rádios. Formou junto a Francisco Senna e Dalva de Oliveira o conjunto Trio de Ouro, a cada apresentação deles era Dona Regina mostrando samba no pé!
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____ A Era das Rádios flutuava entre a vida noturna da elite carioca, e os gostos populares do outro lado. O circuito de cassinos, boates e hotéis residenciais, como o famoso Copacabana Palace, dava destaque para a Rádio Mayrink Veiga. Para esse público seleto, brilhava Marlene, até que surge o concurso As Rainhas do Rádio, quando se lançou ao gosto popular. Popular era a Rádio Nacional, onde cantora absoluta nos anos 40 foi Emilinha, estrela do programa Cesar de Alencar. Verbas de propaganda acirraram os concursos, seu auditório vivia lotado, e brigas na porta eram freqüentes. Foi o fenômemo das “fanzocas”, especialmente nos anos 50, quando a rivalidade entre Marlene e Emilinha ditava o tom das multidões. E Dona Regina era menina daquelas: Marlene roxa!!
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______ Foi neste ambiente que acabou tendo contato com o Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias Nascimento, e ali teve aulas com Mercedes Baptista, bailarina negra laureada no Theatro Municipal, e criadora da moderna dança afro-brasileira, também chamada “dança afro”. Foi com essa escola que adentrou nos shows de Herivelto. Os quase cem anos de Dona Regina guardam essa luta que todos os artistas brasileiros enfrentam, no acender e apagar das luzes, sai rádio: vem tevê, internet, celular, num dia é brilho, noutro: o esquecimento. No Engenho da Rainha foi erguido o Conjunto dos Músicos (prédios residenciais), política de moradia que deu dignidade a grandes nomes do samba, muitos já em idade avançada, Pixinguinha, Zé Ketti, Mestre Marçal, Mussum, e Dona Regina. É com este legado que o apresentamos: Paulo Sérgio Kajal, filho do Subúrbio “profundo”, um poeta Pã americano.
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______ Nesses caminhos pra Rocha Miranda, Kajal aproveitava o trânsito para me mostrar teatros e cinemas da zona norte profunda, locais que da janela do ônibus ele me apontou várias vezes. Em geral, eram espaços culturais já fechados há anos, o que traduz o nível de abandono deixado aos subúrbios. Era passar por Madureira e lá estava o Teatro de Revista Madureira, criado pela atriz Záquia Jorge ainda nos anos 50, auge do “teatro de rebolado”. Pois o amigo conhecia aquelas histórias de cochias, o “quem beijou quem” como só sua tia sabia contar, por ter tido convívio com a “turma da praia” - os que freqüentaram a casa de Záquia, no Recreio. Adepta dos mergulhos no mar, terminou levada pela correnteza, um choque para a sociedade suburbana. E pouco importa que Paulo Kajal tenha ou não me contado disso em detalhes, ou se busquei argumentos na internet, importa saber de sua tia “babadeira”, e através dela chegamos: ao SUBÚRBIO PROFUNDO!
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______ “Záquia morreu!” O emocional tinindo. Logo que o velório é marcado, a notícia se espalha: milhares de pessoas correram ao teatro, aquele erguido por ela. O corpo de Záquia Jorge banhado com as lágrimas dos populares; seu último banho de mar. Foi uma despedida cinematográfica. Ali era o povo no palco; a cena incluía um enorme São Jorge ao lado do caixão; nas fileiras: a plateia eram as coroas de flores deixadas sobre os assentos. E esse filme ganhou muito mais multidões na forma de samba, primeiro foi o viúvo, com "Madureira Chorou" (1958), depois com Roberto Ribeiro, seu"Estrela de Madureira" (1975) - não tem roda de batucada no Rio sem que ela seja cantada! É Záquia Jorge imortal.
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______ Um episódio como esse, uma morte, uma despedida, um samba, coisa que parece simples, se visto na lupa da cultura: é um monstro. Afinal, na “cena derradeira” saltam santos e orixás, entidades indígenas não? O cardápio alimentar do brasileiro é em grande parte nativo, não é curiosa essa ausência? E o tipo de “teatro de revistas” que ocorreu ali, é “do rebolado” como sabemos o can-can francês? Nova Orleans na América? É Betty Boop? Ou é aquele bem brasileiro, do Álvares de Azevedo, do Martins Pena, com comicidade rasgada e crítica social voraz? E para acontecermos com POESIA na Festa de Santa Bárbara de Rocha Miranda? O que seria importante levar como estudo e bagagem cultural? - estar ali “no quente” não seria fácil, ainda menos para quem pensa um complexo de situações históricas, étnicas, sociais. Estamos diante de um “VENCE DEMANDAS” clássico.
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______ Conhecida popularmente pelo nome vence-demandas, a _Justicia gendarussa_ é uma planta usada em banhos, benzimentos, bate-folhas… Tem o poder de desfazer bruxarias, combater inveja, olho-gordo, livrar o destino de certos impeditivos mágicos, para que os “quereres e poderes” aconteçam com fluidez e naturalidade. Com isso, a vence-demandas entra nos domínios dos orixás guerreiros, Xangô, Ogum, Iansã, e no entanto é uma planta original da Malásia, nos mares da China. Este é o NOSSO PORTUGAL, o 1º império onde “o Sol nunca se põe”, retomá-lo culturalmente é uma 1ª demanda. Nesta aventura por Rocha Miranda, já sabíamos a realidade dos subúrbios da Central, seu abandono por políticas públicas. Andar por aquele bairro era deparar-se com maravilhas arquitetônicas, como o Cine Guaraci, sem surpresas: totalmente degradado. Entre 1954 a 1989 era considerada a sala de cinema mais sofisticada do Rio, e apesar dos protestos dos moradores de Rocha Miranda, foi destombado e virou uma loja. Ninguém é mais forte que as políticas de Estado, por isso choramos migalhas, uma vida melhor para um país que ainda fornece “topázios, rubis, diamantes” para ganhos no exterior. Tombar como patrimônio, reformar o teatro Záquia Jorge e abri-lo ao público, ISSO É O MÍNIMO! Tá, nem é, o mínimo seria erguer mais moradias, ter asfalto bom pelas ruas, fazer calçamentos bonitos, transporte adequado, sei lá - é pedir muito pouco.
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______ Naquele 2014 éramos Paulo Kajal e Xandu bastante rodados no circuito da “poesia falada”, na Lapa em especial. Poderíamos levar “um show” nosso até a festa em Rocha Miranda… Refletimos, vimos que uma ação consciente exigiria “tomar pra si” aquele bairro, e seriam muitas demandas: __1) qual poesia levar e quem viria nos assistir? __2) quem são os poetas de lá? __3) onde e como se apresentar ao público? __4) como conciliar liberdade poética e sagrado religioso? …pois os desafios eram muitos.
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______ Se essas eram as perguntas, as respostas saltaram de pronto:
• Visitação e mapeamento da cultura local, ou seja: gastar a sola do sapato;
• Negociar calçadas e lojas onde pudéssemos nos instalar como sarau mambembe;
• Buscar os artistas nos raros saraus daquele entorno de Rocha Miranda;
• Criar poemas perninentes com os temas da festa, com atenção especial ao sincretismo religioso;
• Criar uma pequena publicação com aqueles poemas, e disponibilizá-los para leitura, o que dizemos fanzine;
• Anotar as ruas principais, equipamentos públicos, roteiros de transporte para ir e voltar de diferentes pontos do mapa;
• Reservar dinheiro e energia para estar inteiro para o grande dia: 04 de dezembro de 2014, estreia do Sarau de Bárbara!
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______ Por respeito aos artistas daquele subúrbio, fomos atrás deles. Em Rocha Miranda mesmo, queimamos a sola sem encontrar vestígios. Existia a Casa do Poeta, mas era um centro para ensino musical… Uma pena não termos uma persona poética dali, um músico, que fosse. Certa noite chegamos ao sarau “UM TAL DE SARAU”, na praça de Honório Gurgel, por lá conhecemos
Victor Hugo Rodrigues, era quem organizava, inclusive: é grande agitador cultural do lugar. Pois se não é poeta, também não se furtou de chegar junto e ler poemas. Noutra noite, chegamos no bairro de Vista Alegre, acontecia o sarau CORUJA DA MEIA NOITE, lá estavam de frente o Cosme e sua banda Os Camaleônicos, o poeta Felipe Reys (que tb organizava o Sararau Crioulo), e o poeta Lipe Limão, esse último foi peça fundamental, não só naquele dia, ficou pra vida. Artistas locais? DEMANDA VENCIDA!
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______ Da urbanidade local, fizemos um mapa visual, escolhemos lugares um pouco mais afastados da igreja, para que a festa em si não ofuscasse a palavra dos poetas. Foram contatos diretos, de porta em porta, a rejeição era grande - a floricultura “do axé” fechava cedo, a Cleyde’s Coiffer permitiu mas não liberou a tomada, e o bar, esse que dissemos lá em cima “está a venda” nem quis conversar (não, não teve macumba praquilo fechar não, putz!) …por outro lado, uma venda de móveis bastante humildes, permitiu que nos instalássemos ali, calçada coberta, ponto de luz caído do poste, perfeito para ligar nosso som. DEMANDA VENCIDA!!
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______ Sim, a caixa de som veio do Leme, graças ao Eduardo Tornaghi (sarau Pelada Poética no Leme), pegou um metrô até a Central, e um trem ramal Belford Roxo CHEIO ATÉ O TAMPO, chegamos sonorizados na Praça das Pérolas - ops! - atual praça 8 de Maio. Chegar em Rocha Miranda desde cedo, 18:30h, mas encontrar amigos ali - isso deu um alívio… Pessoas são sempre incertezas. De nossas pesquisas, muitos vídeos de gira pra Iansã (a regente né?), mais leituras de teses, mais vivências, alguns bons poemas entraram no FANZINE DE BÁRBARA! OUTRA DEMANDA VENCIDA!
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______ Depois, com a festa acontecendo, tivemos a sorte de conseguir abrigar passantes, gente preta tá ligado? Fizemos aliança linda com um povo de candomblé, tocaram tambor conosco, o ogã Pierre, Renanzinho, e outros - vinham de São João de Meriti, aliança pra vida! Bom, da nossa trupe nem é preciso dizer que É O FILÉ DA POESIA FALADA, evoé! Mas um destaque se faz necessário: Ana Paula Soeiro, essa poeta usa botas de sete léguas, vai onde é fundamento - e suas qualidades não cabem nesse texto. Sem me esquecer jamais, no último minuto do segundo tempo, apareceu a bailarina, mestra de jongo, senhora de borogodós: Jéssica Castro poeta e presente!! VENCE DEMANDA ASSIM MARAVILHA!!
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______ Cada etapa do Sarau de Bárbara ao longo desses anos vem com a garantia de que SIM, vem textão. É o entendimento por escrito, o texto digestivo daqueles acontecimentos tão amplos. Já escrevi para compreender mitologias negras, seja matriz ioruba, gege nagô, banto, importante isso, viu? Já escrevi da mitologia católica, da Santa que sofre de paganismo reverso, confinada na torre por aderir aos cristãos, imolada pelo próprio pai - e salva por um raio! É lenda, sempre mal contada, mas gosto dessa imagem: na hora em que o carrasco vai descer o machado sobre sua cabeça - cabum! - um raio fulmina suas intenções, frita o maldito, e a moça sobrevive. É um raio como dito aqui: VENCE DEMANDAS!
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______ Daí, numa festa de Santa Bárbara, daquelas lá no início de tudo, estava o Xandu carola, na porta da igreja junto com a multidão - era terminar aquela missa para começar outra, a nossa vez. Mas o microfone na mão tem lá seus poderes, né? Nisso o padre ao invés de encerrar a missa no tempo certo, foi se esticando, falando mais prédicas, o sermão se alongando, e “nossa vez” na água benta já não vinha nunca… E se dezembro é mês de chuva, ainda não era o caso, o padre falando e o tempo fechando, eu doido pra sair dali, cumprir função e tomar uma cerveja, e o padre sem-fim lá naquela, até que TROOWWW!! Um raio explodiu com vigor em cima do poste da igreja FOI DE CAIR FAÍSCA NA CABEÇA, um troço de doido hahaha! Faltou luz na missa e assim se encerrou o sermão daquele padre sem-fim. O povo a minha volta ainda meio que se olhou, ninguém dizia nada, “foi aqueles macumbeiros ali! Santa Barbara na causa!” Hahahaha! Tomei meu rumo, vi com esses olhos o que é um milagre de livra-trevação. Foi um autêntico VENCE DEMANDA!!
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______ AUTO CRÍTICA necessária: fizemos aquela inauguração com todos esses detalhes, sinceramente, organização impacável, e sem mais ítem na lista para riscar. Este 2023 nada daquilo fizemos, ainda tivemos a tristeza de perder “O PONTO” na Rua dos Topázios, abrigo que nos serviu durante 8 anos, pandemia inclusive, mas o telhado desabou. Então, tendo como novo referencial a casa de salgados, logo ao lado, é com esta família que faremos nossa festa de DEZ ANOS - marquem no calendário, 4 de dezembro não é domingo prassempre, é assim mesmo: dia de semana que for, vem cansado, vem depois do trampo, vem com poesia na mente, venham independente de tudo - Sarau de Bárbara? sim, o mais puro VENCE DEMANDA que você poderá encontrar na cidade.
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______ É… Desculpem-me o alongamento, esse textão tamanho plus size, eu mesmo foi quem mais sofreu por escrever em detalhes, mas COM CERTEZA esse exercício é umas das pedras preciosas que nos movem. Uma organização mínima, com dignidade, uma festa potente de nossa cidade, e essas temáticas todas como um desafio fundamental para nossa cidadania - vamo virar 23 / 24 com essa ideia simplíssima: VENCE DEMANDA!!!
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Axé! Evoé! Evoxé!
Poeta Xandu
(24/12/2023)
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FONTES:
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CORDEIRO, Sandra Zorat Cordeiro, Justicia gendarussa (site: Herbário da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Herbário Prof. Jorge Pedro Pereira Carauta HUNI - 2020)
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CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1959.
______. Documentário do Nordeste. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1959.
______. Homens e caranguejos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
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Música: Antigo Sapê – autoria de Samuel Rocha, consta no LP “Os Partideiros Do Plá – Na Cucuruca Do Samba”, Intérprete: Roque Do Plá, Selo: Tapecar (TC-010), Formato: Vinil, LP, Álbum, Brasil, 1972.
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ZAQUIA JORGE - Músicas: samba "Madureira Chorou" (1958). e da homenagem feita pelo Império Serrano (1975), ficou o samba gravado por Roberto Ribeiro, com título "Estrela de Madureira", no álbum Molejo (1975).
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Música: Madureira chorou – autoria de Carvalhinho e Julio Monteiro (viúvo de Záquia) - Intérprete: Joel de Almeida / Formato: Disco de Cêra 78 rpm / selo: Imprenta [S.l.] Odeon, 1957 /Álbum, Brasil, 1958
Madureira chorou,
Madureira, chorou de dor,
Quando a voz do destino,
Obedecendo ao divino,
A sua estrela chamou.
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