Dois de Julho
DIA DOIS DE JULHO - uma coleção de estudos para mintar um fanzine, como é longa leitura, vou enumerar o que me chamou atenção: __1) começo por estudar Manoel Quirino, __2) entender o termo “tutu” em sentido de amor próprio para o negro brasileiro, depois __3) alguns estudos genéricos sobre o Corneteiro “trapalhão” Luís Lopes, sobre a negra capoeirista Maria Felipa (marisqueira), e sobre Maria Quitéria vestida de soldado, e a poesia de Castro Alves sobre o 2 de Julho, enfim __4) tentei buscar nomes negros e caboclos dentro e fora do romantismo nacional, num estudo sobre LIVROS DIDÁTICOS escolares, o grosso fala dos bigodes grossos, dos mercenários de Lord Cochrane, e no fim coloquei um estudo sobre o papel do tribunal da Relação, a classe dos desembargadores, no auxílio aos portugueses e a tentativa de recolonização do Brasil.
.
PESQUISA
.
Manuel Raymundo Querino
Era o começo da grande luta da liberdade contra a servidão opressora”. Assim escreveu Manuel Querino em um ensaio intitulado "Notícia histórica sobre o 2 de julho de 1823 e sua comemoração na Bahia", que foi publicado postumamente em 1923, no âmbito das celebrações pelo Centenário da Independência.
Cem anos depois, o seu ensaio sobre o 2 de Julho é retomado como um dos pontos de partida da exposição “Aos pés do caboclo, luta”, que acontece no foyer do Centro de Cultura Vereador Manuel Querino, da Cãmara Municipal de Salvador, com o apoio do mandato da vereadora Maria Marighella (PT), até o dia 27 de julho. A mostra gratuita pode ser visitada de segunda a quinta-feira, das 9h às 16h. Às sextas, o espaço encerra as atividades às 14h.
A curadoria da mostra é de Joyce Delfim e Nathan Gomes e participação de artistas e coletivos como Aislane Nobre, Articulação dos Movimentos e Comunidades do Centro Antigo de Salvador, Artur Soares, Daniel Soto, Eduarda Gama, Felipe Rezende, Glicéria Tupinambá, Isabela Seifarth, Jack Salvador, Julia Imbroisi, Leila Danziger, Lucas Feres e Lucas Lago, Mário Vasconcelos, Milena Ferreira, Raiz Rozados e Zé do Rocha. A exposição reúne trabalhos que abordam o passado de lutas que marca o imaginário do Dois de Julho, ao mesmo tempo em que discutem as lutas sociais no presente.
Serviço:
Exposição coletiva “Aos pés do Caboclo, luta”
Curadoria: Joyce Delfim e Nathan Gomes
Centro de Cultura Vereador Manuel Querino da Câmara Municipal de Salvador
Praça Thomé de Souza, s/n, Centro Histórico – Salvador/BA
Visitação: Até 27 de julho de 2022
Horário: Segunda a quinta-feira: 9h às 16h
.
Manuel Raymundo Querino nasceu no município de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, em 28 de julho de 1851, filho de Luzia da Rocha Pita e do carpinteiro José Joaquim dos Santos Querino. Em 1855, uma epidemia de cólera assolou a região e provocou a morte de seus pais. A criança foi então acolhida em Salvador aos quatro anos, ficando aos cuidados de uma amiga da família. Manuel Querino teve como tutor e mestre de primeiras letras o bacharel e professor Manuel Correia Garcia. Aos 17 anos, com o Brasil em guerra contra o Paraguai, e tendo apenas o curso primário, alista-se como recruta. Em 1868, viaja pelos sertões de Pernambuco e do Piauí, agregado a um contingente que se destinava ao Paraguai. Mas devido a problemas de saúde, não é enviado ao front e permanece no Rio de Janeiro, onde trabalha na “escrita do batalhão”. Em 1870, é promovido a Cabo de Esquadra, mas dá baixa nas forças armadas e retorna a Salvador.
Trabalha inicialmente como pintor e decorador enquanto estuda Humanidades no Colégio 25 de Março e no Liceu de Artes e Ofícios, do qual termina sendo um dos fundadores. Com sua forte inclinação para o Desenho Geométrico, matricula-se na Escola de Belas Artes e obtém o diploma de desenhista em 1882, sendo em seguida aprovado para o curso de Arquitetura, no qual se destaca recebendo medalhas e distinções. Mais tarde, torna-se Lente de Desenho Geométrico do Liceu de Artes e Ofícios e do Colégio dos Órfãos de São Joaquim e publica em 1903 o manual Desenho linear das classes elementares.
No campo político, tem atuação de destaque ao se engajar na luta pelo fim da escravidão e do império. Integra a “Sociedade Libertadora 7 de Setembro” e assina em 1870 o “Manifesto Republicano”. Está entre os fundadores dos periódicos A Província e O Trabalho, nos quais escreve artigos combativos em favor da Abolição e da República. Participou também do semanário Liga Operária Baiana, resultado da mobilização de trabalhadores urbanos e publicou diversos artigos na Gazeta da Tarde, sendo considerado por Bradford Burno (apudOliveira, 1998) o “primeiro historiador negro do Brasil”. Em 1890, adere ao recém-fundado Partido Operário e, antes de abdicar da carreira política, integra o Conselho Municipal de Salvador (atual Câmara Municipal).
Ao pesquisar e divulgar a contribuição dos povos africanos no Brasil, Manuel Querino demonstra a seus iguais a sua importância na construção do país e ao mesmo tempo alerta os descendentes brancos sobre a dívida histórica que possuíam. Querino foi um dos primeiros brasileiros a apresentar uma visão histórica do Brasil que leva em conta as contribuições dos africanos, fazendo-lhes justiça.
Sua obra se divide em duas fases: a primeira, entre 1903 e 1916, versa sobre os artistas e as artes no Brasil, dando a devida importância para trabalhadores - em sua maioria negros - constantemente desprezados pelo avanço das técnicas e dos monopólios. É uma fase que compreende crônicas, ensaios e artigos. Merece destaque o estudo “Os Artistas Baianos”, artigo de 62 páginas publicado na revista do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, em 1906. A que se seguem As artes na Bahia, de 1909, Artistas baianos: indicações biográficas, de 1911, e “Bailes Pastoris”, de 1914, entre outros.
Na segunda fase, que vai 1916 a 1922, Querino se dedica ao estudo dos costumes oriundos da presença afro-diaspórica na Bahia. E se debruça sobre as práticas culturais recuperadas pela pesquisa de fontes primárias presentes da memória coletiva e inscritas na oralidade. Em 1916, teve participação de destaque no 5º Congresso Brasileiro de Geografia, no qual apresentou seu estudo “A raça africana e os seus costumes na Bahia”, publicado nos anais do evento e posteriormente incluído no volume A raça africana, edição póstuma de 1955. Ainda em 1916, publica A Bahia de outrora: vultos e fatos populares (reeditado em 1922 e 1946), no qual reúne escritos anteriores acrescidos de novos textos. Em 1918, vem a público O colono preto como fator da civilização brasileira, obra extremamente significativa no processo de dignificação do contingente negro brasileiro. Publica também uma série de artigos e crônicas, como “Homens de cor preta na história”.
Manuel Querino faleceu em 14 de fevereiro de 1923. Seu trabalho de resgate da contribuição cultural da diáspora africana na Bahia é pioneiro e se contrapõe aos discursos oriundos da colonização, com toda carga de preconceitos que ainda carregam. E ressurge na contemporaneidade movido pela atualidade histórica de suas reflexões sobre essa porção ainda marginalizada na sociedade.
Fontes:
OLIVEIRA, Eduardo (Org.). Quem é quem na negritude brasileira. 3.ed. São Paulo: Congresso Nacional Afro-brasileiro; Brasília: Ministério da Justiça, 1998, v. 1.
PINTO DE AGUIAR, Manuel Querino e sua obra. In: QUERINO, Manuel. A raça africana e seus costumes. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1955, p. 5-11.
.
Acessível em:
https://books.scielo.org/id/mv4m8/pdf/carvalho-9788523212087-03.pdf
.
.
.
.
.
2 de julho de 1823. O dia em que o povo ganhou
Ubiratan Castro: O título mais feliz para o 2 de Julho foi criado pelo historiador Joel Rufino dos Santos: o dia em que o povo ganhou. Na história da Bahia e do Brasil, este foi o único momento em que a união e os esforços populares obtiveram uma grande vitória: a criação do Estado independente do Brasil. O 2 de Julho foi o resultado de uma ampla mobilização nacional, que uniu dos senhores de engenho aos escravos descendentes de africanos e todas as camadas sociais em torno de um projeto unificado de um Brasil independente, de um país economicamente autônomo e com a esperança de uma sociedade mais justa. Essa esperança é materializada no projeto da abolição da escravidão defendida pelas camadas populares, pelos republicanos e pelos escravos; projeto este que foi negado no dia 3 de julho de 1823. Com isso, o 2 de Julho inicia todo um ciclo de movimentos populares, como a Revolta dos Mata Marotos, os levantes populares contra a permanência no poder de elementos ligados à colonização portuguesa, os movimentos contra o monopólio do comércio exercido por comerciantes portugueses e pela nacionalização do comércio. Revoltas estas que chegaram até a revolução de 1830 e 1831, com a renúncia de D. Pedro I como imperador. UC: Não. Em nenhum outro estado houve uma resistência à independência parecida. Nas outras capitanias, o que prevaleceu foi a decisão do governo central no Rio de Janeiro, com Bonifácio de Andrada e Silva e o imperador Pedro I. Houve uma adesão administrativa formal ao grito da independência. Na Bahia, a situação foi diferente, porque a cidade estava ocupada por quase 10 mil homens das tropas portuguesas da Legião Constitucional, comandada pelo general Madeira de Melo, e a esquadra portuguesa comandada pelo Almirante João Félix. Estas tropas eram fiéis à proposta da re-colonização. Eram formadas por nacionalistas portugueses radicais, que defendiam a re-escravização, a re-colonização do Brasil. Então eles reagiram, fincaram pé em Salvador e expulsaram as tropas brasileiras, que se re-agruparam em Cachoeira e recôncavo, sitiaram Salvador com os portugueses dentro e travaram uma dura guerra para expulsa-los, o que aconteceu finalmente no dia 2 de julho. Por isso, é que a gente diz que a Independência do Brasil consolida-se na Bahia em 2 de julho de 1823. Porque se os portugueses fossem vitoriosos, eles teriam mantido a Bahia como colônia de Portugal e, pela posição geográfica do estado, impediriam a unificação de todo o território do Reino do Brasil. Com isso, fatalmente nós teríamos três países: um Nordeste, com capital em Recife, a Bahia colonial e o sul do país com sede no Rio de Janeiro. A vitória na Bahia assegura a unificação territorial do Brasil independente.Equipe
Coordenador
Jocélio Teles dos Santos
Co-cordenador
Wlamyra Albuquerque
Bolsistas
Ingrid Leoni de Queiroz
Marcele Moreira
Mona Lisa Nunes de Souza
Renê Salomão
.
FOTOS:
alguns panfletos foram salvos
POESIA:
são três poemas de Castro Alves
Ode ao 2 de Julho de Castro Alves (publicação)
BAHIA HISTÓRICA:ODE AO 2 DE JULHO E MARIA FELIPA
O DOIS DE JULHO
Era no dois de julho
A pugna imensa
Assim começa o belo poema de Castro Alves “ODE AO DOIS DE JULHO”,que celebra as lutas pela independência da Bahia,em 1822.Os portugueses se recusavam a largar o osso e continuavam aqui,mandando e desmandando,mesmo após o Sete de Setembro.
-Mas,é o Trinta Diabos!?
Ela falou: -E eu sabia!?Prá mim era só um maroto inimigo.
Uma palavrinha sobre um quase garoto,magrinho e analfabeto,sem nenhuma experiência militar,que definiu a guerra: Luís Lopes. Era o corneteiro da tropa. Ao ver tantos portugueses reunidos na Colina de Pirajá, Barros Falcão, prudentemente ordenou o recuo.Mandou tocar:Cavalaria,recuar.
O Lopes,atrapalhado tocou:Cavalaria avançar.
-Mandei recuar,imbecil;disse Falcão.
O Lopes tocou: Cavalaria,degolar.
Madeira, assustado,pois sabia do abraço dos patriotas de Cochrane que abarcava a Pituba pelo lado esquerdo e Pirajá pelo direito,mandou tocar retirada completa e a tropa debandou,desesperada.Meu bisavô dizia que era como atirar em pombos;eles nem se defendiam mais. Volto com o poeta:
Lá no campo deserto da batalha
Com a fuga de Madeira e seus asseclas para Lisboa,perseguidos por Labatut até a foz do Tejo,o Brasil estava finalmente independente.
“Tu que erguias subida na pirâmide
Maria Felipa comandou cerca de 40 mulheres num ato de ousadia e muito desembaraço, onde queimaram 42 barcos da esquadra, permitindo ao povo de Salvador a supremacia nos embates e a definição da situação, com a vitória sobre as tropas da dominação Portuguesa.
Em sua biografia destaca-se também a lendária história de quando Maria Felipa usou galhos de cansanção para dar uma surra nos vigias portugueses Araújo Mendes e Guimarães das Uvas.
"Maria Felipa foi uma guerreira negra que junto com cerca de 40 mulheres seduziram os portugueses e quando eles estavam completamente envolvidos, e sem roupa, deram-lhes uma surra de cansanção" - nos conta Hilda Virgens, da Casa de Maria Felipa.
Maria Felipa, ainda que pouco conhecida, é estudada hoje em Faculdades e Universidades. Esta mulher negra que lutou pela independência da Bahia ainda não foi devidamente reconhecida na história da Independência da Bahia.
Comentários
Postar um comentário