Iami Osorongá

A
___ Iami Osorongá! ___ *Sobre a Figura na foto: vemos uma divindade feminina, de seios fartos, nus, está grávida, e vestida com uma saia adornada com búzios, feições sérias, olhos de grandes pálpebras, traz nas mãos uma panela, enquanto equilibra uma gamela na cabeça. 

___ O MOTIVO MAIOR desta foto é dar brilho poético a FESTA DE IEMANJÁ (dito "presente") através das intervenções "afro-sarau", onde alguns poetas e artistas do Rio propõem-se a expressar homenagem as festividades religiosas e plurais, com destaque para o afro-brasileiro. Como preparação estão incluídos: reconhecer as festas e o sincretismo religioso de forma geral, estudos acadêmicos, memórias pessoais e familiares, afetos diretos, tematizações, e a produção de arte específica para esta data _transformada em fanzine e intervenções no local escolhido. 

___ Foi um deslumbre encontrar (para mim: Poeta Xandu) o estudo de iconografia religiosa intitulado "Por que são de madeira essas mulheres d’água?", da pesquisadora Marta Heloísa (Lisy) Leuba Salum, publicado na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia (São Paulo, pp: 163-193, 1999). A partir de quatro imagens atribuídas a Iemanjá, o estudo revela complexo cruzamento de mitos, memórias, segredos e práticas religiosas que enriquecem e avançam sobre a sabedoria ioruba. Convido os feice-amigos para este breve resumo. 

___ A pesquisadra Lisy ao escolher as 4 imagens de Iemanjá, depara-se com as trilhas abertas por Pierre Verger (Paris, 1902 — Salvador, 1996) a quem precisamos conhecer. Aos 30 anos, este francês iniciou-se na fotografia etnológica, e por isso rodou o mundo, registrando a morte cultural dos povos diante do processo colonialista europeu. No Benin, tornou-se babalaô renomeado Fátúmbí, na Sorbonne foi reconhecido como "Doutor" e  no Brasil (1946) se apaixonou pela cidade de Salvador; onde se tornou professor da UFBa (1973), dirigiu o Museu Afro-Brasileiro-MAFRO, e dali foi como professor visitante para a Universidade de Ifé na Nigéria. 

___ Como fotógrafo ou etnólogo, antropólogo ou pesquisador, o fato é ter sido Verger grande recolhedor de falas e materiais relacionado aos orixás, que por fim deságua em sua teoria de fluxo e refluxo cultural entre africanos e brasileiros. 

___ Lisy, ao seguir os passos de Verger, depara-se com a imagem de Iemanjá do início do séc.XX, do  Museu da Polícia de Salvador (IML), registrada no acervo "Coleção Nina Rodrigues" como africana, apesar de apreendida no Brasil. Tratada como "existente na Bahia", a semelhança da estátua de Ibadan, principal templo de Iemanjá na Nigéria, completa Verge _ é representada por uma “mulher grávida, símbolo da maternidade” observando que “as mãos estão do lado do ventre e ela tem seios fartos” 

___ Antigas imagens da Virgem Maria recebiam também o nome de Nossa Senhora do Ó, com representação de gravidez, e por este motivo a concorrência de uma imagem considerada pagã, como Iemanjá, sofresse restrição colonial, proibida em sua forma humana. Na Bahia, Iemanjá é “latinizada na forma”: estatueta de sereia com cabelos longos.  

___ Porém, interessava-lhe como pesquisadora debruçar-se sobre o material utilizado nestas imagens: madeira. Intrigam-lhe os orikis (cantos de evocação) levantados por Verger: “Ela é água e nada se pode fazer sem água”, “mãe de tetas chorosas”, com “rins de onde jorram as águas”, distantes de qualquer relação com o simbolismo "madeira". 

___ Das imagens que trata Lisy, foi na Nigéria que Verger conheceu a cidade de Abeokutá, onde havia um grandioso templo de Iemanjá (logo extinto e transferido para Ibadan). Não fotografou aquela Iemanjá, apenas se refere, dizendo:  “(...) Era uma mulher que tinha o hábito de sentar-se no lugar onde, atualmente, existe a ponte. É nesse lugar que seus adeptos vão fazer-lhe oferendas (...) No templo antigo, se faltasse água na região, quando Yemonja dormia e, no seu sono, ela se voltava da esquerda para a direita, as fontes jorravam.” 

___ Elege então a estátua de Iemanjá de Ibadan, para compor acervo no Museu MAFRO/UFBa. A mesma, mandou reproduzir para integrar acervo no Museu de Arqueologia e Etnologia-MAE/USP. No registro da Exposição Permanente do antigo MAE, nos diz Lisy, impunha-se essa figura de madeira ao lado dos dois  painéis dedicados ao “rei divino” e “deus-trovão” dos ioruba, com título: “Xangô e suas mulheres”. Eis que Lisy nota semelhança com o registro de Frobenius (1873 - 1938), etnólogo e arqueólogo alemão de importância histórica nos estudos africanos, cujo desenho retrata de três cabeças femininas, sob um machado de xangô. 

___ Buscando fundamentos para entender a relação entre a imagem de Yemanjá e a inscrição “Xangô e suas mulheres”, coube a Lisy estudar as várias mitologias iorubas. Reproduzo seus pensamentos: 

"
“F. - ior.: ‘yèyé’ - mãe; ‘omon’ (diminutivo para animais); ‘e ja ’ - peixe (Mãe dos peixinhos). = ‘Yemonja’ (Yemanjá).” (Cacciatore 1977: verbete Yemanjá). 

(...) 
Sem sinais de uma literária e pisciforme deusa mitológica, [7] como diferenciar a imagem de Iemanjá das de outras entidades femininas do panteão ioruba-nagô? 

A feitura do feminino à imagem do mito: Odudua e Obatalá tiveram um filho homem, Aganju (“lugar inabitado”) e uma filha mulher, Iemanjá (“mãe de peixe”),6 que por sua vez, geraram Orungan (“alto do céu” ou “ar”). Orungan apaixonou-se pela mãe, perseguiu-a, e na fuga ela caiu: seu corpo inchou e brotaram de seus seios cursos d ’água; seu ventre explodiu e dele saiu uma série de personagens, entre eles Xangô e suas três mulheres Oiá, Oxum e Obá.

(...) considerada mulher primeira, Iemanjá é a que tem um pouco de cada uma das iabás mais vultuosas, como as esposas de seu filho Xangô. Iemanjá, feita de todos os arquétipos da  mulher - dos monstros navais da Antigüidade às nossas senhoras da Cristandade - é 
enérgica como Oiá, 
feminina como Oxum, 
dedicada como Obá. 

(...) 
Maternal? Sensual? Poderosa? Mãe, mulher, feiticeira - atributos que se confundem: é muito difícil identificar aquela que, num quadro de sucessivas relações incestuosas, é gerada e geradora. 

(...) 
Além disso, por que ela é mãe zoomórfica, de seres antropomórficos, humanizados? 
- Ela não? 
"

___ Já me alongando, tentarei encurtar as conclusões da pesquisadora: _eis que Lisy observa as estátuas através de suas funções sociais. A gamela em sua cabeça, ora poderia servir de assento, ora poderia servir como pilão. Nota que o material de que são feitas as gamelas é a madeira da gameleira branca (Brasil), ou uma espécie de amoreira (África), sendo esta madeira a representação do Irokô, árvore sagrada que resguarda os Erês (representação de crianças). Eis onde entra Xangô na composição mitológica na estatuária de Iemanjá. 

___ Mito-1: Na cidade de Oyó, reinava absoluto Mokwa, que era tido pelo povo como homem  e orixá. Quando este saiu para guerra, Xangô resolveu testar sua qualidade de orixá, convencendo o povo de que ele não era. Ergueu-se uma gamela gigante, e quando aquele voltou da guerra, Xangô o lançou na gamela e ateou fogo até que só restassem cinzas. Como Mokwa ressuscitou, Xangô resolveu provar ser orixá também: segue vestido com sua saia enfeitada por 16 cauris e enforca-se pendurado numa árvore, voltando a vida também. Estava provado que ele era ORIXÁ. 

___ Mito-2: Em outra passagem mítica, Mokwa, rei de Oyó, descobre a trama de Xangô para destituí-lo do poder. Mokwa conclama o povo a tirar a vida de Xangô, mas este se adianta, corre até uma gameleira e ali se enforca. Naquela árvore nascem dois brotos (Ibejis, dois erês: macho e fêmea, irmãos univitelinos), cuja missão é conduzir Xangô ao reino dos mortos (Egungum).  

___ Filha do céu (Obatalá) com a terra (Odudua), da união de Iemanjá (água) com seu irmão deserto (Aganju) nasceu o ar (Orungã), de quem foi emprenhada em relação de estupro: dando origem mítica aos demais orixás. Dentre estes: Xangô. Como ente mitológico, Iemanjá é "água", pela qual simboliza o passado e o presente, é mãe e esposa, é orixá feminina, e também é Exu e Erê. Foi na qualidade de Erê que certa passagem mítica lhe atribui "enganar" as vistas de Xangô em ritual aos antepassados, exclusivo do masculino (Eguns), mas acabou sendo descoberta. Foi na qualidade de Exu que se vingou de Xangô após os castigos sofridos. É por tudo isso um ente temível. 

___ É desta mesma madeira ritual (gameleira) que são feitas as máscaras Geledé, representações de crianças, assumidas por brincantes (arabôs), homens e mulheres, numa festa dedicada à Iemanjá: a Festa de Geledé. Trata-se de um ritual coletivo de travestimento, pelo qual todos evitam desagradar a Grande Mãe, o Festival Geledé remete aos Filhos de Iemanjá. 

___ Finalmente, a pesquisadora discorre sobre a importância da relação entre Iemanjá e Xangô. Para Lisy, é no Festival Geledé que Iemanjá recupera as propriedades da "mulher original", a anciã, mulher autossuficiente, "ave solitária". Pleno de hierofania e presentificação, o Festival Geledé dedica a FEITICEIRA MAIOR todas suas lendas, mitos, ditos, envolve-se em liturgia, música, dança, teatro, especialmente: carregam uma representação da cabeça da Grande Mãe. Esta cabeça também é esculpida do tronco da gameleira, sendo portanto nesta árvore sagrada (Irokô), protetora das crianças (Erês), onde se assenta Iami Oxorongá, a FEITICEIRA MAIOR, cujo poder é ressocializar e conter as barbaridades típicas de Xangô.   

Awa abô ayô, Yemanjá!
Adorei recontar essa história :D
Saravá, Lisy! 
Asé meu povo! 
xnd

- link original:
www.revistas.usp.br/revmae/article/view/109348 


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