2023 ANO DA COELHADA

 ANO DA COELHADA 

**textòn especial pro sarau Ratos Di Versos, dos misticismos do Xandu  
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No horóscopo europeu se utiliza o calendário solar, diferente do zodíaco chinês, que é de ciclo lunar, cujo Ano Novo nesse 2023 é marcado em 22 de janeiro – sob a égide do COELHO. 
Em 7 de janeiro começou o “chun yun”, os 40 dias de viagens pelo país, tão esperadas a cada Ano Novo chinês. Aos seus 1,4 bilhão de habitantes somam-se os parentes da diáspora e turistas aos milhares. O formigueiro se move, com seus carros, motos, vale ônibus e tuc-tuc, aviões à toda e trem-bala à mil – é o maior deslocamento de massas do planeta! 
O Ano Novo Lunar (yuandan) da China chegou a ser abolido no início dos 1900’s, auge do domínio inglês, da escravidão e do flagelo do ópio. Na entrada do Parque Shanghai, a placa de aviso: nem cães nem chineses. Duas Guerras Mundiais, muito sangue, luta, fome, eis que em 1949 o PC Chinês restitui a festividade de Ano Novo, rebatizada “Festival da Primavera” (chūnjié) – hoje um estouro! Os níveis sociais e econômicos melhoraram muito, deram fim no analfabetismo e miséria, é para comemorar! 
Aqui como lá, seja qual for o signo, virada de ano é bagunça na praia de Copacabana! A Festa da Primavera é das tradições chinesas que mais trouxe contribuições aos costumes no Brasil. São lanternas “japonesas”, balões, pipas, foguetório, comilança, bebelância; heranças guardadas em nossas festas juninas. Na China ainda hoje se fala o português, temos Goa, Macau… e a virada do ano traz isso: bons pensamentos. 
E muito amor! O coelho é um mamífero roedor, que por suas virtudes reprodutivas tão bem afamadas – simboliza a fortuna. Para o ego do animal-símbolo de nosso sarauzinho Ratos Di Versos, diga-se: o rato pareia com o coelho na forma, tamanho, e nas qualidades voluptuosas da existência carnal – zumpaaa! 
Certo …nem por isso vão cruzar genes, não teremos coelhato nem ratelho, a imagem mais próxima disso é a GERBOA (ali na foto) espécime roedor natural do Baluchistão – só de olhar pra essa imagem dá tilt na mente! rsrs Atá. Esse lugar é um deserto, fica entre o Irão, Paquistão, Afeganistão, ou seja, isso é bem pra lá de Bagdá. 
Para voltar ao Coelho: em qualquer busca ligeira no gluglou, o horóscopo chinês parece ser simples: uma granja celestial. Nessa, até lembrei da célebre astróloga Zora Ionara, no tempo do rádio: ela a falar mandarim, explicar energias cósmicas dos bichos, conjunção de planetas e cores propícias, sortes e azares, simpatias, feitiços, rezas – não é bem assim. Na praia de Ipanema vá lá! Mas pergunte-se que bichos que deuses, e tente olhar pras estrelas: a casa cai. Amigo, isso é um buraco negro na astronomia complexa. 
Horóscopo?! Certo. Joga um pouquinho de granja, uma pitada de selva  e páh! Matou a charada. Extistem ameaças no mato: tem tigre, tem macaco, tem cobra… Existe o roçado, com boi, cabra, cavalo;
existe a “casinha no campo”, com galo, cachorro, porco… daí aparece um DRAGÃO! Ohhhh!!! 
Nessa de falar “o horóscopo chinês” temos camadas sobre camadas, de história oral, crenças e ditos, o que foi escrito há mil, 2 mil, 3 mil anos atrás, entrou nas cavernas, pinturas rupestres. E o que foi criado naqueles tempos “de quando os animais falavam” virou mito, depois lenda incabível, então wiquipédia, e congelou no glugou. Ninguém sabe bulhufas. 
O que se sabe de certo é que o ancestral do galo tinha chifres. Foi emprestar seu adorno de testa pro dragão, este gostou, deu o pinote, e nessa: – perdeu mané! até hoje é um triste cocoricar, o galo da madrugada só faz reclamar e chorar. E coelho nem existia. Nas tribos que deram origem ao zodíaco, o primitivo do coelho era o Quilin, que tinha escamas ao invés de pêlos. Foi assim até a dinastia Zhou (1100 a.C.-256 a.C.), sendo trocado pelo Coelho em algum momento indeterminado, só na dinastia Han (202 a.C.-220 d.C.) fez-se o registro por escrito. 
Como animal totêmico a história é ainda mais antiga. Encontram-se coelhos voadores nos vasos cerâmicos da dinastia Xia (2100 a.C.-1600 a.C.); e nas cavernas da Idade da Pedra as pinturas mostram: um coelho de jade estampado no peito de um grande pássaro – que representa o eclipse solar. 
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Na mitologia chinesa, o símbolo do sol é o pássaro, e não são poucas as artes que relacionam o coelho a lua, como os espelhos de bronze datados do tempo dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.)… digamos… ver desenhos na lua é lugar comum. Aqui no Brasil é ver “São Jorge matando Dragão”, na China é ver “Coelho mexendo panela”, que é um caldo especial que ele prepara: o elixir da imortalidade. É um coelho mandingueiro aqui, coelho com escamas ali, outro com asas, outro na lua, e coelhinho tarado é o que mais tem. O barato é louco. 
São essas histórias “velhas”, representações mitológicas, o berço de deuses e enredos psicodélicos - e a crença no horóscopo vem daí. E tem o galo … a base cultural chinesa é fundada no taoísmo, onde tudo é equilíbrio, yin / yang. São forças opostas porém complementares, já falamos do coelho, da lua, noite, pois o Galo é seu yang, o sol, o calor. 
A lenda conta que teve um tempo em que o mundo viveu sob seis sóis fumegantes, nada crescia, a fome apertava. Os melhores arqueiros foram convocados para flechar cada um deles. A distância era muita, tarefa impossível. Então o imperador percebeu que os sóis se banhavam num resto de rio, que mirar ali naquele reflexo ficava mais fácil. Lá foram eles, apagaram um dois três mas o sexto sol ficou com medo e correu pra se esconder atrás da montanha. Baixou uma noite sem-fim, e o frio passou a vigorar – resas, súplicas, nada adiantava. Então foi chamado o Galo, seu belo canto apaziguou já o Sol, todos festejaram. Mas o Sol impôs condição: só voltaria a brilhar todos os dias se pudesse ouvir aquele canto. Assim foi feito, e o Galo recebeu do imperador uma bela crina vermelha. E essa é apenas uma das histórias do Galo chinês. 
Na religião taoísta, o mundo foi obra da deusa Nuwa, criou os animais, um a cada dia, e também: o ser humano. Era o nono dia da criação quando surgiu o Imperador de Jade; aquele que organizou o calendário em ciclos de doze anos: 1) rato; 2) boi; 3) tigre; 4) coelho; 5) dragão; 6) cobra; 7) cavalo; 8) bode; 9) macaco; 10) galo; 11) cachorro; 12) porco. 
Seu desafio foi enfrentar uma terrível seca, aquela que resultou do impacto de um grande meteoro (ou 6 sóis?), que dizimou a fase dos homens na Terra. 
Paizão, o que fez então? reuniu os animais que sobraram para compor uma nova ordem, repor a harmonia entre a vida e os astros. Como eram só 12 assentos no céu, foi organizada uma corrida, pra ir preenchendo as vagas por ordem de chegada. 
Eis a gincana: a corrida valia “levar as sementes de arroz para fecundar o novo tempo”, que teve início às 5 da madrugada, que é a hora “mào”. Então, os 12 bichos a postos, menos o Gato, já que o Rato ficou de acordar a todos, mas na pressa se esqueceu daquele. Desde de ali, o Gato passou a odiar o Rato. Na verdade, creio que o Gato entrou no panteão animal bem depois, talvez pelo contato com os egípcios. São milênios de histórias… 
Bum! O boi queimou a largada e não parou mais, o rato e o gato vinham bufando logo atrás. Na hora de cruzar o rio, viram que não dava pra competir – treparam em cima do boi. E o gato morria de medo d’água, terminou empurrado e o rato hahaha! tranquilinho, viu lá de cima a linha de chegada se aproximando, pulou na frente e venceu. 
O gato se afogou lá atrás, sumiu da história (de novo, né?); e o boi nem percebeu a treta, chegou em segundo, sem choro, normal. 
O porco foi quem notou a trapaça, e abriu o megafone pra delatar o ratão - até na China isso é feio, dedo duro não pode, cartão vermelho, último lugar. O tigre até vinha bem, mas saiu do rio todo encharcado, perdeu o ritmo, terceiro nele. 
Cachorro e coelho correndo, cabeça-cabeça, o cão deu-lhe uma mordida na perna  – outro cartão vermelho, caiu pra penúltimo. Pé de coelho traz sorte, é o que se diz. 
O cavalo veio num galope galante, ligeiro, e também muito atento: a cobra no caminho quase lhe deu um bote! Ele empinou, deu pulo pra trás, não quis arriscar. Daí, diminuiu o trote, deixou a serpente passar. 
O dragão com galhada de galo tinha tudo pra chegar bem classificado, mas muito bondoso, parou pra ajudar um pessoal, se atrasou. Coração de ouro, mas nada bobo, viu de longe o bote da cobra, resolveu vingar o cavalo. Para mostrar seus dotes, voou por cima, e no fim foi ele quem deu bote, levou o quinto lugar. 
Então lá vinha o cavalo, mas a cabra desceu o morro em disparada, disputa acirrada, pau-a-pau, até que baixou um clima yin-yang danado… acabaram amiguinhos na pule. Pois se aquele é banhado no raciocínio e na decisão; a outra é impulsiva, trabalhada nos sentimentos e nas artes, resolveram cruzar a linha de mãos dadas… O Imperador é quem teve de decidir: a razão antecede a emoção. 
O macaco e galo também se consorciaram, construíram uma jangada para atravessar o rio. No fim, o macaco foi mais brejeiro, sendo essa a nona e décima posição. 
Putz! Essa história toda não é contada igualzinha, nem nos sites especializados. Tem o sumiço do gato, ao mesmo tempo muito amado na cultura chinesa. A cabra, o bode, a ovelha, esses nomes variam. E o macaco pode pular de nuvem em nuvem. O cão e o porco, ora são julgados pelo Imperador, ora é mais simples: ficam dispersos, brincando pelo caminho. 
Maravilhamento é o que podemos dizer de uma rica paisagem cultural, onde o Ano Novo Lunar só faz brilhar. 
Se essa festa toda acontece no primeiro dia, ainda há um calendário de superstições, tem o dia pra varrer a casa (o azar), dia pra não varrer (a sorte), pra fazer banquete, jejum, visitar os sogros, etc. Existem deuses (ou magos) para vigiar isso tudo, se vai comer guiosa, se vai louvar a pedra, a semente, a ovelha, o cavalo, deus até para ver se o comércio foi aberto, ou se o banheiro está limpo. Datas e crenças e procedimentos rituais, e esses são os primeiros dias do ano. 
Por exemplo, o quarto dia do ano – é o “dia do rato” (shǔ rì). A tradição obriga a deixar farelos, grãos e biscoitos pelos cantos da casa, compartilhar seu alimento com os ratos – para que o resto do ano eles não voltem. Em seguida, todos vão dormir cedo, para não perturbar o “casamento” do rato, que é também neste dia. Assim, os ratos comem, se amam, e retribuem o carinho – evitam fazer bagunça ao longo do ano. 
Festival das Lanternas  no 15º do calendário lunar, um dia especial para acender as lanternas, multiformas, estruturas feitas de papel de seda, uma bucha em brasa, e vê-las subir em direção à lua cheia. Não saberia avançar mais sobre o tema, o momento é bonito por si. Encontrei, porém, essa história do Cantão da China, parece ilustrar perfeitamente o Ano do Coelho. 
CANTÃO DA CHINA ~ também chamada Guǎngzhōu, capital da província de Guangdong, das zonas mais populosas da China, possui 15 milhões de habitantes. É no décimo quinto dia do ano novo chinês, quando paira no céu a lua cheia, o coelho brilha, escancaram-se as portas do amor. Nessa noite, na região de Cantão, os jovens se dirigiam até a horta mais próxima, afim de furtar verduras (偷青 touqing), como uma superstição para obter um casamento (偷情 touqíng). As duas palavras se relacionam por serem homófonas, ou seja: em cantonês soam de forma igual. Desta colheita insólita temos hortaliças como cebolinha, aipo, alface, a se traduzir em esperteza, atitude, fortuna, que na função de auto-elogio, afinal, segue da propaganda ao necessário arranhão na superfície do amor. E, sob a luz do luar, quem guia o caminho é justamente o coelho de jade que lá reside, para alegria dos jovens que querem verduras, ou seja, dar suas coelhadas e ter muitos frutos. 
Ufa! De tudo um tanto foi dito, resta desejar a todos um próspero ano novo, feliz “Gongxi facai” (恭喜发财) abaixo a violência e viva a saliência! 
Fontes: 
Tem um tanto de gluglou, wiquipédia, algo do site Mandarim Lin “O ano novo chinês”, texto de Mariana Ferry (dez/2021); outro tanto de
“Zodíaco: o caminho dos animais” escrito pela bióloga Paloma de los Milagros (21/dez/2022); mas o grosso foi tirado da Revista Macau, “O ano do Coelho”, de 01/12/2010, conteúdos acessíveis em: 






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