Rat-Zine 22-B do C

 Rat-Zine 22-B do C 

- contém: Rufino + Nietzsche + Zé + Xandu 

OBS: é de carreirão !! 

O beijo e o bicho

Eu dei um beijo na cabeça do bicho.
Perplexado com meu ato
passei a refletir num tom apressado
o que esse beijo me podia causar.
Uma virose louca
devido ao grande contato
de seu pêlo em minha boca?
Uma alergia infeliz
devido à proximidade
de seu aroma em meu nariz?
Uma doença estranha
devido ao toque
de meus dedos em suas entranhas?
Amendrontado com meu ato
deixo que o eixo do medo
supere a ternura do beijo.
Bicho que não pediu beijo,
porque deixo que o meu preconceito
atravesse como uma espada de aço o meu peito?
Beijo: ato de amor.
Beijo: para aliviar a dor.
Bicho: criatura intrigante.
Bicho: ser interessante.
Beijo: sinal de carinho.
Beijo: derrubando os espinhos.
Bicho: animal consciente.
Bicho: quase igual a gente.
Não sabendo o que se passava na cabeça do bicho
passei a pensar que sabia o que se passava na minha.
Mas sabendo que o bicho tudo tinha a ver com isso
passei a responder com a razão o que o coração não adivinha.
Oh Senhor! Deus do Universo.
Por tudo que há de mais imerso.
Não permita que eu jogue meus lábios no lixo.
Pois na minha cabeça
ainda beija
o beijo que eu dei
na cabeça do bicho.

Marcio Rufino 

Marcio Rufino é escritor, poeta, ator, performer e historiador. É autor dos livros de poesia Doces Versos da Paixão (Acridoces Paixões), Emaranhado e do infantil Ângela e Aldebaran. Atuou em importantes movimentos lítero-culturais do Rio de Janeiro como Sarau Donana, Universidade das Quebradas, Slam Tagarela e Flup. Participou da I Batalha de Slam de Poesia Falada do Palco Favela do Rock in Rio 2019. Um de seus poemas fez parte da exposição itinerante Poesia Agora. Recebeu os prêmios Litteratudo-Monteiro Lobato e Destaq Baixada e Heloneida Studart de Cultura da ALERJ.  
 
De: Marcelo Nietzsche 
Assunto: fli rato 1, 2 e 3 


O VÍRUS

 

e então vimos os olhos

… e o que eles diziam? …

o que eles queriam dizer?!?

por baixo da máscara um sorriso?

seria isso?! de dúvida, descrença,

piedade, escárnio, prazer, satisfação?

não saberia dizer …

é uma nova linha de percepção das pessoas

… mas não. Isso já existia antes.

Falam muitos. Todo mundo.

Nem isso nem aquilo nem nada.

Quem no deserto só com olhos visíveis prossegue?

nas ruas e reuniões as mulheres só despem os olhos.

Seria então vingança contra os ocidentais

que invadiram e ocuparam suas terras e areias

em busca de petróleo, minérios,

ópio no Afeganistão, caviar no Irã.

E sim, apesar do seu fatalismo os russos são ocidentais

Essa é a vingança de quem enxerga os olhos!

Morri. Era 28 de setembro de 1964.

Morri. É verdade.

Todos morremos ao menos duas vezes na vida.

Não … não guardo memória nenhuma desta.

Mas morri. Era 28 de setembro de 1964.

Meu corpo não se encontrava mais lá …

vestígios de uma atrocidade:

poças de tripas, sangue, fezes!

De antes. Por uns tempos restaram fotografias

bicolores, preto-branco, ferrugem e desgaste;

foram se apagando …

depois … Mais nada. Registros.

Números. Letras. Coisas que significavam outras.

Agulhas me furaram. Espancado.

O ar violentou meus pulmões …

são registros; dados; nenhuma recordação em si.

Chorei!

O que eu era estava morto.

Definitivamente!

Evidências sem um corpo! Nenhum corpo!

Eu estava morto.

Era 28 de setembro de 1964.

A morte: o princípio da vida.

Marcelo Nietzsche


e então foi que nos encontramos,

quer dizer, foi aí que nos achamos

roendo unhas, desfiando os fios

ou melhor,

foi quando achamos que nos achamos

e cada um achou o achou no outro

e cada um achou o que achava que era o outro

e então: ....

foi aí que nos desencontramos 

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Ze Felipe 
Data: quarta-feira, 14 de dezembro de 2022
Assunto: 
Poesias Ze sem Nome / DJ Doidera 


rouba numa das piscinas a janela 
 do tempo 
 muito antes dele beber
 o chá 
 devagar 
 volta a nascer 
 depois se suicidaria 
 os seus pés o matariam


 um coração que o facho colhe e vem andando desde as falhas.
 um rio que o tecido escorre e vem trabalhando desde as torres.
 dentro do leste . 
 esforço  e jeito 
 carinho e flor das livrarias
 todos saberiam mas
o passarinho 
deitou em seus ossos 





 o senhor do hortelã  
 volta como sendo o seu pai.
 já fere ao nascer
 para trepidar a cobra 
 em cujos peitos o cubo 
 fala do destino com a camisa aberta.
 Seu estanho turvo  umbigo 
 banana entre os jornais de dedicação e cara de leite. 
 outra parte berra 
 sobre filhos e carinhos .
Mas  o filho que ele desperta , 
 vai morrendo na bunda . 
 mais que isso 
 as formigas do adultério
dentro deste instante obscuro
 Igual minha voz num domingo 


 lembro.
 está na porta . 
 Debaixo do cativeiro estava,
 por meus dias, 
 e por uma outra menina , 





---------- Mensagem encaminhada ----------
De: 
Ze Felipe 


teus Seios 
batiam barriga e seis frevos 
foram encontrá-los deitados
mel de oscilar ódio
nas aranhas 
como trapos 
É preferível matá-los 



 Não quero mais vozes na cozinha
 numa das janelas fala a frieza 
 chão tique-taque 
 almoça e grita e disfarça . 
 antes da hora nascer 
 neste planeta de cama em que me sofro 
 de neve ou cintura 
 chão , homens crescem , portas 
fazem o barulho
que cresce como uma ribanceira 
que reza num paletó , 
como um dia sem a continuação da manhã 


 já era alguma magia . . 
 esta nossa escravidão em enterros celestes 
 o pão de ouvir café . 
 vejo o leproso 
ou um corpo 
violentado pelo cão . , 
somente o som do deserto,
fruta de dizer,
uma planta nova que perguntavam
como era


Poesias Ze sem Nome / DJ Doidera 


inimigo humano porco profundo alcance necessário cinema franzino inverno barato 
 na outra parte 
 num cão que não gira . 
 o verme que ele sustenta , 
não Sucedeu . 



 paz leitor baralho 
 como se me dissesse 
são facas do domingo 
luz de petróleo deitada
 como um perfume na palavra 
 que 
 afrouxa 
 nariz boca . 



estavam mortos de febre . 
seu trabalhador 
Meu mel , morte , 
o crepúsculo negro 
o pobre as
três “ esquinas ” com leite longo 
são vozes do coronel 
 conversas e criança entre uma pólvora e um ingrato diante do facho 
 espiando entre os gases 
CONDUZIDO SOB O dia , 
sombra 
 Mergulha nele , bomba 
 Não quero isso nas minhas mesas 



 O leitor se assustou . 
 numa das noites as vísceras de sais 
 de irmãos frágeis 
fases sacanas 
muros cavados
 coisas” 
 da sombra , 
 a decisão indevida . 
 De Traduzir uma parte 



 como se me dissesse ou me odiasse . 
Varig
 vendemos nosso oculto 
 e bosta . 
 entre relógios
 pedras e flores 
adormeço . 
 antes de acabar 
 No ônibus 



anel fazendeiro
 Meu susto desmedido de comida e de desmoronamento . 

Ze Felipe <zefelipe@gmail.com> 

Deus Trabalhava mudo 
necessito do gato 
 É aquela lama 
 eu mesmo juntarei a fraqueza com a vagina 
  Vou voar para vocês 
 capins,  que numa das órbitas chamam a rifa 
 conviver com seu desprezo . 
É uma parte de mim 

 . 

 explodir na penumbra. 
 que eu mesmo venho rasgar .
  que me chama por hostes e sombras entre pétalas de Fogo 
E começa 
 onde os homens são poeira
entre os cabelos da manhã transparente no olho 
  O inimigo da esperança 
 

 flexível fogo laranja 
 No silêncio 
 Muros ponros 
 no saco 
 com um leito que se parecia com
 esse odor fazendeiro 
 carne lida dele 


 e vejo , 
 um produto que sucedeu 
 só mata o cão . 
 ou dentro de um desespero 
 ali não se bebe 



 ( e que 
 Que destino tem neste 
crepúsculo barato?
 terá de respirar a lâmpada . 
 antes de encontrá-lo 
 pararam para garantir . 
 cuidado 
 Hesito, meus pratos , 
 musgos indecifráveis, latas jovens, filhos das aranhas 
 te vejo , essência , 


Aaa
.  
 
DO XANDU, SÃO DUAS PARTES: UM RAP + UM POEMA 

_1) sobre o material: 
a última parte é a poesia "Maria", que está com falhas MAS eu acho que passa, a outra é um RAP, foi gravado duas vezes, está todo cortado, sendo a 1ª leva com um andamento mais lento, e com falhas que achei mais graves, a segunda leva está num ritmo melhor, mais rápido, porém com remendos e perdas de memória porque não tinha decorado um trecho mais pro fim... Esse aqui, ó: 
"Rói-corda arrebenta a luta 
No estilo capitão-do-mato 
Acomodado e violento 
Só colhe do resultado" 

_2) RECOMENDAÇÃO: 
o RAP é ambição antiga, na gravação está muito retalhado, e dois andamentos diferentes, então... se a edição der muito trabalho, não me importo de ser excluído, aguardo dois meses até o próximo bloco do programa RádioDDi Versos, se tivermos isso de "continuidade".  Sem problemas. 

_3) LETRAS 

_3.1) RAP 
prugurundum, prugurundum, prugurundum, bummmm!!!
Viva o Brasil! (2x)
Vi-vivi-vivivivi-vivi? 
Vivo é num conto de fadas 
que começa com "já era" 
no Brrasil chicote estrala 
sem caô, nem Cinderela 
O páis tem muita terra 
É vazio, quase ninguém 
Onde chega a indústria agrária 
Te expulsam, não importa quem 
Os encantados das florestas 
Nas reservas, os ribeirinhos 
Cultura tradicional 
Sem papel e sem registro 
Tem o índio? Está com fome 
O camponês vive com medo 
O latifúndio late e fode 
E eu num contei nenhum segredo 
Portuga sofreu degredo 
A tribo foi massacrada 
Africano escravizado 
Nóix tamo tudo lascado 
É por gente depois de gado 
Bem tratado, alimentado 
Que é carne - pra quem está gordo 
Porrada - pra quem está magro 
O monotóchico, a monsanto 
Faz ração pra engordar porco 
Cachaça pra deixar louco 
Tem crack, flagelo, e fé 
É a cana de açúcar 
Que deixa a tribo maluca 
É a soja, é o milho 
Jagunço pra dar uns tiros 
A boiada, que é violenta 
Arrebenta com sua roça 
E o pobre do agricultor? 
Fica sem a mandioca 
Sem feijão e sem as frutas 
Sem legume e sem verdura 
A lei do campo é a lei do cão 
E o silêncio? 
Vem com a censura 
A queimada que é criminosa 
É clandestina, é perigosa 
Mas como o vento nunca pensa 
Vem o vento (fu-fu-fu!) 
O fogo aumenta 
Tiro pega, tiro acerta 
Vem mais cerca 
A cerca cerca 
E o pobre do agricultor? 
Mas que jeito? 
Fica sem terra... 
E o índio Kaiowá? 
Mas que jeito? 
Fica sem terra... 
E o pobre retirante 
Forma a massa da favela 
O sistema é sinistro 
Esses pulíticu não presta 
Na hora de pedir voto? 
Me inclui! Pra fora dessa 
Quem lucrou com a ditadura 
Na urna forma quadrilha 
E o pobre dobra o joelho 
Se quiser o bolsa família 
Vai pedir o que é direito 
Só recebe o que vem torto 
Quem sofre da língua sôlta 
Us cara prefere morto 
Vem o tiro pelas costas 
Sem provas? Fica de pista 
Não espere por delegado 
Fechado com terrorista 
O detetive não investiga 
Se "Freud" sem analista 
E a imprensa passa por cima 
Machete, jornal, revista 
Nem pense em pedir ajuda 
Pro fulano de Brasília 
A cada verdade que é dita 
São mais de vinte mentiras 
No troca-troca da miséria 
O que vale é circo e pão 
Canalha só teme o povo 
No tempo da eleição 
Que é cargo pra ficar rico 
Justiça pra ficar cego 
Martelo pros inimigos 
A graninha vai na cueca  
Todo dia tem protesto 
Grita, xinga, manifesta 
E a turma do deixa-disso 
Não vê fome, não vê pressa 
Rói-corda arrebenta a luta 
No estilo capitão-do-mato 
Acomodado e violento 
Só colhe do resultado 
Sua igreja não vê propina 
O dinheiro que é desviado 
Chama o SUS pra revoltado 
Hospício, prisão, puliça 
Faz carniça do insurgente 
Difama com a oposição 
Vampiriza o explorado 
Que grita na escuridão 
O jeito é enfrentar a dor 
Ser forte, reconstrutor 
E a resconstrução que resta 
É a flecha insurgente 
Us pulíticu num existe 
O que existe é tudo a gente 
Bloco urbano e os Kaiowá 
Us curupira inteligente 
Um plano pra por pra fora? 
O plano vem como é: 
Kaiowá tá com a macaca 
E o sistema só dá de ré 
Um plano pra por pra fora? 
O plano vem como é: 
Us professor tão na revolta 
E o choque sabe qualé 
Um plano pra por pra fora? 
O plano vem como é: 
Vem gari, vem camelô 
Vem povão, vem professssor 
Pra frente! Sem arredar pé!  
(eco)

_3.2) MARIA  
Hoje... Hoje Maria nasceu, pequena, doce, como tantas hoje, nasceu com seu grito, seu chorinho lindo, hoje Maria berrou, esperneou, sapateou de raiva, quando percebeu, por que caminhos, por quais sendas, desalinhos, fácil seria torná-la doce, com doces palavras, carinhos, aplausos... Hoje, no claustro, Maria chorou, quando se viu quase reduzida, quase se assumiu na vida, como boneca Barbie, Xuxa, doce, e docemente triste, fraca, desautorizada. (suspiro) Hoje Maria segue em frente, soltando pipa, saltando elástico, dançando ciranda, jogando pelada _ nua! como sempre esteve! _ sexy! como sempre amada! Hoje Maria acendeu velas, por mulheres mortas, na luta por melhorias, dentro de uma fábrica, há muito tempo já incendiada.... Hoje ela sobe o morro com a lata dágua, e logo desce, doce, comandando o samba, mas não se cansa de alertar o povo, de falar de novo a toda vizinhança. Hoje Maria não é mais criança, nem é boneca, tampouco virgem, nem só maquiagem, muito pouco dança, hoje ela é mãe de sua própria Maria, e vive numa correria, persiste em corromper a sina, insiste em corrigir o macho, hoje Maria é mulher, em cima e embaixo. Hoje Maria é casa, é comida, roupa lavada, é arrumadeira, passadeira, é babá, e na cozinha é até uma fada... mas não por que o faz de graça, porque todos são, que todos façam. Todos são tão fortes, decididos, todos são tão fracos, estremecidos, por olhares invisíveis que vem: do machismo, do apartaide, da puliça! Maria sabe tudo: sonha e não sustenta barrigudo, samba e não tolera sem-vergonha, rala, trampa, trepa, conversa, faz tudo. Hoje não passa do dia da mulher. Dia da mulher, da criançada, dia da alegria, dia de luta por melhores dias. Hoje não passa do dia da mulher. Maria mulher, é o que ela é, o que ela diz, o que ela dá, o que ela faz para despertar a fúria revolucionária da mulher!! Mãe... Maria... Mulher... É hoje. - É HOJE MARIAAAAA!!!  




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